
Eu cresci grudado em telas.
Tinha nove anos quando meu pai trouxe um Atari para casa. Lembro da textura do joystick, de amar River Raid e Enduro, da sensação de que aquilo era o futuro chegando na sala. Depois vieram outros videogames, o computador, as horas de novela com a família no sofá, os três filmes alugados na locadora na sexta à noite. Hoje, sou aficionado por séries, passo mais tempo nos streamings do que com a leitura de livros, admito.
Fiz carreira defendendo a boa integração tecnológica na educação. Escrevi O Professor Ampliado, sobre como a inteligência artificial pode potencializar o trabalho docente. Uso IA todos os dias, pesquiso seus efeitos, acredito no que ela pode fazer de bom. Não sou, e não quero ser, o sujeito que demoniza a inovação. Quando alguém propõe voltar ao quadro-negro como solução, eu sou o primeiro a discordar.
Mas eu tenho de ser honesto sobre algo que venho observando há anos.
Lá por 2019, comecei a ouvir relatos que não conseguia mais ignorar. Professores diziam que os alunos já não sustentavam a atenção por dez minutos, não por preguiça, mas por algo que parecia diferente, mais profundo. Diretores descreviam crises de ansiedade em crianças de nove, dez anos que simplesmente não existiam poucos anos antes. Pais me procuravam sem saber o que fazer com filhos que não largavam o celular ou o computador nem para ter uma boa noite de sono. E os próprios jovens, quando a conversa era franca, diziam que sabiam que fazia mal, mas não conseguiam parar.
Eu ouvia tudo isso e pensava: perdemos o bonde.
Não o bonde da tecnologia… Esse a gente pegou. Perdemos o bonde do combinado. Das conversas que deveriam ter acontecido em casa, na escola, na sociedade sobre como usar essas ferramentas antes que elas nos usassem. Entregamos smartphones para bebês, crianças e adolescentes sem manual, sem limite e sem que ninguém tivesse pensado direito nas consequências. As redes sociais vieram logo atrás, com algoritmos desenhados para prender atenção a qualquer custo. E nós, adultos, não educamos ninguém, nem a nós mesmos. Estávamos ocupados demais entrando no vício também.
Não falo disso como quem descobriu o problema ontem. É a observação de quem trabalha com educação há mais de trinta anos e testemunhou a mudança em tempo real. E que demorou para falar com essa franqueza, talvez porque admitir o problema significaria admitir que a tecnologia que eu defendo, e da qual eu mesmo dependo, tem um lado destrutivo.
Tem.
Entregamos smartphones para bebês, crianças e adolescentes sem manual, sem limite e sem que ninguém tivesse pensado direito nas consequências
A ciência não tem mais dúvidas. Nos últimos cinco anos, estudos de grande escala, com milhares de crianças e adolescentes acompanhados ao longo do tempo, documentaram efeitos do uso excessivo de telas sobre o sono, a estrutura cerebral, a saúde mental e a capacidade de atenção. Não são correlações frágeis. São dados robustos, replicados em diferentes países, publicados nas melhores revistas científicas do mundo. E muitos deles vêm do Brasil.
Esta série é sobre esses dados, mas não só.
É sobre a mãe que entrega o celular no restaurante para poder jantar em paz e depois se sente culpada. Sobre o pai que reclama do tempo de tela do filho enquanto não larga o próprio telefone durante as refeições. Sobre o professor que percebe que algo mudou, mas não sabe como agir. Sobre o adulto que abre o Instagram para ver "bem rapidinho" e emerge quarenta minutos depois sem saber como chegou ali. Sobre mim, que escrevo sobre inteligência artificial e, às vezes, preciso me forçar a largar o celular para proteger o meu tempo lúcido.
Toda quinta-feira, pelas próximas semanas, vou trazer um pedaço dessa conversa. Vou falar de sono, de cérebro, de ansiedade, de algoritmos que lucram com a nossa raiva, de como adultos e idosos são tão vulneráveis quanto as crianças que tentam proteger, e do que ainda podemos fazer.
Não espere de mim uma cruzada contra a tecnologia. Seria desonesto da minha parte. E, no fundo, inútil. O celular não vai embora. As redes não vão desaparecer. A inteligência artificial vai ficar ainda mais presente. A questão nunca foi a ferramenta. É o que fazemos com ela.
Tecnologia é amplificador. E estamos usando ferramentas poderosas sem ter decidido, de verdade, o que queremos que elas ampliem.
É sobre isso que vou escrever nas próximas semanas e espero que você participe da conversa.
Toda quinta, aqui.



