
Meus quatro cachorros me fazem uma pessoa melhor. Gaia, Cecil, Pipoca e Billy me ensinam sobre presença, afeto sem condições e a alegria das coisas simples. Eu os amo profundamente e digo sem constrangimento: eles são muito melhores do que muita gente por aí.
Começo assim porque não consigo parar de pensar no caso do Orelha, o cachorro comunitário da Praia Brava, em Florianópolis, brutalmente morto por adolescentes no início de janeiro. Orelha vivia há cerca de dez anos na região, cuidado por moradores, pescadores e comerciantes. Era dócil, conhecido, querido. Foi espancado e precisou ser submetido à eutanásia. Os mesmos adolescentes são investigados por tentar afogar outro cachorro no mar.
O que mais assusta nesse caso não é apenas a crueldade, mas o perfil de quem a praticou. Como disse o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, tratava-se de “adolescentes, jovens de famílias estruturadas, agredindo um cão por pura maldade”. Enquanto escrevo, pais e um tio de alguns suspeitos foram indiciados por coação de testemunhas. Dois dos adolescentes estão em viagem aos Estados Unidos.
Estamos diante de um fenômeno que não pode mais ser tratado como exceção. A série Adolescência, da Netflix, que liderou a audiência em mais de 70 países, expõe isso de forma perturbadora: um menino de 13 anos, aparentemente comum, de família “estruturada”, assassina uma colega após ser radicalizado por comunidades online misóginas. A ficção ecoa uma realidade que já conhecemos no Brasil, dos ataques a escolas em 2023 à normalização da violência como linguagem entre jovens.
O psicólogo social Jonathan Haidt, em A Geração Ansiosa, mostra como a “infância baseada no brincar” foi substituída, a partir de 2010, pela “infância baseada no celular”. Os meninos, em particular, migraram em massa do mundo físico para o virtual. Jogos on-line e redes sociais até simulam pertencimento e risco, mas não desenvolvem as habilidades necessárias para a vida adulta. Pior: expõem esses jovens a comunidades que transformam frustração em raiva, e raiva em violência.
Os dados brasileiros confirmam o alerta. Pesquisa do Instituto Think Twice Brasil revelou que 8 em cada 10 jovens já visualizaram conteúdos violentos ou perturbadores nas redes. Em um mês, de 1.200 vídeos recomendados pelo TikTok, 18,3% incitavam violência, incluindo apelos explícitos a ataques em escolas. O estudo Juventudes e Conexões mostrou que 58% dos jovens acreditam que a internet aumentou a agressividade e o extremismo.
Nada disso acontece por acaso. Algoritmos premiam engajamento, e a agressividade engaja. Plataformas lucram com tempo de tela, independentemente do conteúdo. Comunidades como incels e redpills acolhem meninos perdidos oferecendo pertencimento, enquanto plantam misoginia e ressentimento. Como explica a professora Lola Aronovich, esses grupos se aproveitam de uma fase de busca por identidade para capturar jovens por meio de uma falsa escuta. Enquanto protegemos nossos filhos com zelo no mundo físico, deixamos que naveguem sozinhos em um oceano digital que normaliza a crueldade.
Pais e professores precisam estar atentos. O que nossos filhos e alunos consomem quando ninguém está olhando? Que ideia de masculinidade está sendo construída nesses espaços? Que valores estão sendo cultivados em silêncio? A regulamentação das redes é urgente, mas não basta. É preciso retomar diálogo, presença e educação para a empatia.
Hoje, 27 de janeiro, é o Dia da Proclamação dos Direitos dos Animais. Mas confesso que não estou em clima de celebração. Estou de luto. A data lembra que toda vida merece cuidado, dignidade e proteção. Lembra também algo mais profundo: a capacidade de respeitar a vida é o que nos faz humanos. Mas é exatamente isso que está em risco.
Não consigo parar de pensar nele agonizando, sem entender o que tinha feito de errado. Porque ele não tinha feito nada. Ele só existia, dava alegria e amor. E para alguns, isso já foi motivo suficiente.
Educar para o respeito à vida, de humanos e de animais, nunca foi tão urgente.

