
Ella Stapleton pagou mais de oito mil dólares por uma única disciplina na Northeastern University, nos Estados Unidos. Esperava encontrar o que todo estudante paga para receber: alguém que estudou tanto a ponto de guiar seus alunos pelos atalhos e abismos de um campo de conhecimento. Em vez disso, encontrou slides com textos triturados e fotos de pessoas com três braços ou joelhos no lugar errado. A grotesca assinatura da IA sem revisão humana.
Ella seguiu o fio. Descobriu que o professor Rick Arrowood usava ChatGPT, Perplexity e Gamma para preparar as aulas. O curso, ironicamente, proibia o uso de IA pelos alunos. A universidade recusou o pedido de reembolso. O mundo é pródigo nessas simetrias perversas: quem tem poder usa IA; quem não tem, leva advertência.
O caso viralizou nos Estados Unidos, mas o desconforto é global. Em sites como Rate My Professors, estudantes reclamam que pagam caro para ter especialistas em sala, mas recebem conteúdos que qualquer pessoa poderia gerar de graça no próprio computador. A frase mais frequente é uma mistura de frustração e deboche: “Se é para ter aula do GPT, eu podia ter economizado uns quinze mil dólares e ficado em casa.”
Esse é o novo teatro da educação superior. Professores fingem que ensinam com materiais feitos por IA. Alunos fingem que aprendem com respostas geradas com IA. No meio dessa coreografia de aparências, alguém segue pagando mensalidades reais por uma experiência cada vez mais artificial. Legião lembrava: “Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”.
Há quem console o debate dizendo que a IA só “ajuda” ou “agiliza”. Mas há um limite entre apoio e abdicação. Quando o professor terceiriza a aula e o aluno terceiriza o esforço de aprender, a universidade vira o quê? Uma pastelaria cognitiva de luxo, em que cada lado compra pronto o que deveria fazer com as próprias mãos.
Um estudo na Applied Intelligence estimou que cerca de 10% dos artigos científicos recentes já incorporam trechos gerados por IA, quase sempre sem declaração explícita. A fronteira entre autoria e automatização está se desfazendo numa velocidade que ultrapassa nossa capacidade de entender o que isso significa.
A forma mais fácil de resolver é culpar a tecnologia. Mas a raiz do problema é a nossa dificuldade crescente de distinguir profundidade de aparência. Em experimentos recentes, participantes preferiram poemas gerados por IA a sonetos de Shakespeare, desde que não soubessem a origem. Isso não diz algo sobre a máquina. Diz sobre nós.
Isso não é um problema só nos EUA, mas acontece no Brasil e em várias partes do mundo. Professores e estudantes daqui estão usando IA sem discussão, mediação ou orientação pedagógica. As universidades, especialmente as que não primam pela qualidade, correm o risco de virar fornecedoras de diplomas (criados pela IA) em versão autopilotada.
Ella Stapleton fez a pergunta incômoda que muitos estão evitando: se o professor usa IA para simular expertise e o aluno usa IA para simular aprendizado, quem está aprendendo alguma coisa? E, mais grave ainda, quem está ensinando?
A resposta, quando vier, precisa ser humana antes de ser tecnológica.





