
Esta coluna faz parte de uma série sobre o futuro da educação com inteligência artificial, inspirada em capítulos do livro O Professor Ampliado, que será lançado na Feira do Livro de Porto Alegre. O texto de hoje se baseia no Capítulo 3, que discute como a noção de autoria está sendo reinventada na era da IA generativa.
Um trabalho impecável (mas de quem é?)
Imagine a cena: seu filho chega em casa com um trabalho de história impecável sobre a Revolução Farroupilha. Texto bem escrito, nota dez. Mas uma dúvida cutuca: foi ele quem escreveu ou foi o ChatGPT? Essa pergunta, que já ronda famílias e escolas em Porto Alegre, ganhou números concretos: segundo a pesquisa TIC Educação divulgada nesta semana, sete em cada dez alunos do Ensino Médio usam IA generativa em pesquisas escolares.
Ou seja, não estamos falando de um futuro distante. A pergunta da autoria já é parte da rotina escolar brasileira e vai moldar a forma como entendemos criatividade e aprendizado daqui para frente.
Da proibição ao convite à cocriação
Por muito tempo, a reação foi de desconfiança. A IA generativa era vista como “cola digital” e, em muitos casos, proibida em avaliações. Mas a realidade vem se mostrando mais complexa.
Na USP, por exemplo, um grupo de estudantes de Direito usou IA para analisar milhares de páginas de processos judiciais em minutos. O papel deles não foi apertar um botão: foi fazer as perguntas certas, interpretar padrões e transformar dados em argumentos, algo que a máquina sozinha jamais faria.
Como lembra Ethan Mollick, professor da Wharton School, o trabalho nesse novo cenário se assemelha ao de um “centauro”: metade humano, metade máquina. A força da IA se soma à direção e ao senso crítico do humano.
Autoria que ganha camadas
A sala de aula também começa a se transformar. Em vez de gastar energia caçando plágios, alguns professores estão propondo experiências criativas.
Conheça três exemplos já testados:
- Resumos com alma: a turma pede à IA um resumo de um livro. Depois, cada aluno insere memórias pessoais, referências de filmes ou conexões com seu bairro. O texto genérico vira narrativa viva.
- História recontada: os alunos pedem que a IA gere imagens de heróis nacionais. Quando percebem a ausência de mulheres, negros ou indígenas, reescrevem a narrativa de forma mais justa.
- Debate crítico: a classe gera cinco versões de um texto sobre “democracia” e analisa quais vozes foram incluídas ou silenciadas. O exercício vira aula de cidadania.
Nessas práticas, autoria deixa de ser “quem assinou” e passa a ser quem deu sentido, quem trouxe a marca humana (e que marca é essa?) ao diálogo com a máquina.
O professor: de xerife a arquiteto
O dado da TIC Educação revela outro ponto preocupante: embora a maioria dos jovens já use IA nas pesquisas, poucos relatam receber orientação da escola sobre como utilizar essas ferramentas de forma crítica e criativa. Isso abre espaço para que a IA seja usada de modo raso, apenas como atalho.
É aqui que o papel do professor se torna insubstituível. Em vez de atuar como xerife caçando plágio, ele precisa assumir o papel de arquiteto da cocriação, guiando os estudantes a encontrar e imprimir suas vozes de forma original e ética em meio aos algoritmos.
Em vez de perguntar “foi você que escreveu isso?”, a “pergunta de ouro” pode ser:
- Qual foi a parte mais interessante que a IA te sugeriu e por quê? Como você a deixou ainda melhor?
- Em que ponto você discordou da máquina e reescreveu com suas próprias palavras?
- O que você adicionou que a IA jamais saberia sobre você ou sobre o mundo?
Essa mudança tira a conversa do campo da investigação e a leva para o campo da mentoria sobre criatividade e pensamento crítico.
Só nós podemos acrescentar sentido
Autoria nunca foi ato isolado. Sempre dialogou com culturas, tradições e histórias anteriores. A diferença é que, agora, esse diálogo inclui também um parceiro de silício, que tropeça em metáforas, mas pode abrir portas inesperadas.
Na era da IA, autoria não é perder a voz. É aprender a escolher o que vale a pena dizer, de que forma, como encontrar e imprimir a sua voz original. E isso continua sendo tarefa humana. Só nós podemos acrescentar sentido.




