
Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, trouxe recentemente uma reflexão que merece atenção. Em um ensaio vigoroso, ele alerta para o risco de sermos empurrados para uma “realidade de segunda ordem”, feita de algoritmos, simulações e imagens sintéticas que podem substituir o convívio humano e a experiência corpórea. Sua defesa do “direito à realidade” recoloca no centro do debate a necessidade de protegermos aquilo que nos torna humanos: presença, vínculo, corpo, hesitação, erro e afeto. É uma contribuição valiosa num tempo em que, muitas vezes, celebramos mais a velocidade da inovação do que a profundidade da vida.
Concordo com muito do que Saron escreveu. A aceleração da inteligência artificial, sobretudo das ferramentas generativas, nos coloca diante de dilemas éticos inéditos. Estudos da Microsoft com a Universidade Carnegie Mellon mostram que a confiança cega em sistemas digitais pode reduzir nossa capacidade crítica, deslocando da mente humana para a máquina processos que deveriam ser formativos. Também sabemos, a partir de pesquisas em educação, que a mediação sensível de professores continua insubstituível: não há algoritmo que substitua a experiência de aprender olhando nos olhos, convivendo em comunidade, errando junto.
Mas aqui começa minha divergência. Ler o texto de Saron é como revisitar Platão e Baudrillard; sombras projetadas, simulacros e a necessidade de defender o real contra o sintético. Essa metáfora ainda é potente, mas soa datada. Mais do que uma nova eletricidade, a IA me lembra a própria invenção da linguagem: reorganiza como narramos, simbolizamos e criamos mundos. Hoje, separar “realidade” de “simulação” é praticamente impossível. O celular já é prótese do nosso corpo, nossas memórias estão na nuvem, nossos afetos se espalham em mensagens de voz. Segundo pesquisas do Pew Research, adolescentes entre 13 e 17 anos passam em média 7 horas por dia em telas, e 85% afirmam que suas amizades digitais são tão reais quanto as presenciais. A realidade física e a digital já se fundiram, e essa fusão não é exceção, mas regra.
Por isso, penso que o debate não deve girar apenas em torno do direito à realidade, mas do direito a uma realidade híbrida digna. O desafio não é separar humano e máquina, mas integrar essa fusão de modo ético, criativo e justo. A questão não é mais se convivemos com algoritmos, mas como conviveremos com eles.
É nesse ponto que se insere o que estamos defendendo em O Professor Ampliado. O professor do nosso tempo não é guardião de uma pureza perdida, mas arquiteto de experiências que costuram mundos físicos e digitais. Mostramos, por exemplo, casos de educadores que utilizam IA para criar materiais personalizados de acordo com o ritmo de cada estudante, mas preservam a roda de conversa, o olho no olho, a escuta sensível que nenhum algoritmo substitui. É nesse equilíbrio entre tecnologia e humanidade que a ampliação acontece.
Se Saron nos alerta contra a “desigualdade sintética”, nós propomos transformá-la em potência: fazer da IA uma aliada para a equidade ampliada. Isso significa garantir que crianças de periferias tenham acesso às mesmas trilhas de aprendizagem personalizadas que jovens de centros ricos já têm; que professores sejam formados não em simulacros de estágios, mas em contato vivo com escolas reais, ao mesmo tempo em que conversam com um mentor virtual para refletir sobre sua prática; que gestores possam analisar dados com algoritmos, mas sempre devolvendo sentido humano às suas decisões.
Não precisamos escolher entre o mundo vivido e o mundo digital. Precisamos lutar para que essa realidade híbrida seja habitável, confiável e plural. Como lembra Ailton Krenak, nossa época é especialista em produzir ausências. O risco é a IA ampliar esse vazio. Mas, se usada com consciência, ela pode ser também a chance de reconstituir presenças, multiplicar mundos, alargar horizontes.
O direito à realidade de Saron é um alerta necessário. O direito à ampliação que defendemos é um projeto: fazer da IA uma aliada para que mais crianças e jovens tenham acesso a oportunidades incríveis, mais professores se sintam autores de suas práticas e mais escolas se tornem lugares onde existe uma realidade híbrida digna, sempre com os pés no chão e os olhos na esperança.




