
Olga ajeitou os cabelos. O vestido azul-marinho ganhava brilho com as luzes do plenário. Senadores a aplaudiam de pé, alguns com lágrimas autênticas. Outros seguravam cartazes: “Saber é o alicerce da Nação!”
— Com a palavra, a professora e ecologista Olga Santana, da Escola Municipal Nova Esperança!
Ela respirou fundo ao se aproximar do púlpito.
— Senhoras e senhores senadores, — o sotaque carregado de orgulho — esta tribuna não é para mim. É para os saberes da floresta, a ciência ancestral, e cada professor que sustenta o futuro do país com um pedaço de giz, olhar afetuoso e paciência inesgotável.
Repórteres avançaram. O fundo digital exibia livros flutuando sobre igarapés e uma caneca de açaí que se reabastecia sozinha.
— Professora, como se sente sendo homenageada?
— Com um nó na garganta. Sonhamos com esse reconhecimento, mas nunca achamos que vai chegar.
— E sobre a decisão de equiparar o salário de professores ao de parlamentares?
— É uma justiça simbólica, tardia e necessária. Um país que valoriza o professor investe na fundação, não em fachadas.
A repórter acelerou: — E a medida para banir empresas de apostas online e oferecer educação financeira para a população?
— Saber cuidar do que se tem é essencial. Mas quem vai ensinar? Vi jovens plantando sonhos no concreto das apostas.
A repórter hesitou, desarmada pela firmeza da fala.
— A senhora viu que professores e cientistas estão liderando as listas de influenciadores?
— Ah, isso sim é influência real. Traduzir filosofia em libras, a matemática do orçamento familiar, a química na restauração dos pampas... A nova geração rejeita espelhos distorcidos. Quer referências com raízes.
Um bip interrompeu a entrevista. Pixels se dissolveram no ar.
— Olga! A janta! — chamou o marido.
Ela retirou o visor. O cheiro de peixe assado flutuava no ar da casa modesta de Santarém.
— Fugindo pro seu mundo paralelo de novo? — disse ele, no batente. — Isso não muda a merenda sem proteína da escola.
— Mas muda meu ânimo para lutar por ela amanhã.
— Por que não lê um livro? Ficção pelo menos ensina sem iludir.
— Pode estar mais próximo da realidade do que uns vídeos de fake news que você às vezes compartilha, João.
Ele bufou.
— Você é ingênua...
Ela o interrompeu, serena, enquanto servia o arroz.
— Imaginar o Brasil que pode ser é o que me mantém inteira, meu amor.
Ele puxou a cadeira.
— Se ao menos usasse esse tempo para algo que fizesse alguma diferença... Nietzsche dizia que a esperança prolonga o tormento.
Ela sorriu…
— Mas é Darcy quem me define: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”. E pousou o garfo, firme. — Nietzsche diz que a esperança é tormento. Darcy, coragem. Qual dos dois seguir ou criticar? Sigo tentando não me resignar. Mesmo sabendo que indignar-se, por si só, também não basta.
Olga olhou pela janela. Lá fora, sob o céu estrelado, as árvores susurravam:
Crescer é resiliência.
Desistir, só um instante.

