
John Ternus levou apenas oito dias para responder à pergunta mais incômoda que acompanha qualquer novo presidente executivo da Apple: o que muda agora? Ele assumiu o comando em 1º de setembro e, ontem, 9 de setembro, subiu ao palco para sua primeira grande apresentação. A resposta veio dobrável, custa US$ 1.999 nos Estados Unidos e começa em R$ 21.999 no Brasil. Chama-se iPhone Duo.
Seria exagero atribuir a Ternus a criação do aparelho. Produtos dessa complexidade passam anos em desenvolvimento. Mas CEOs não precisam ter desenhado aquilo que apresentam para transformar um produto em símbolo de uma gestão. E foi exatamente isso que aconteceu. Depois de 15 anos de Tim Cook, o primeiro grande palco de Ternus colocou no centro da cena não algum misterioso aparelho que substituirá o smartphone, mas uma nova versão do próprio iPhone.
A Apple apresentou o iPhone 18 Pro e o 18 Pro Max, ambos equipados com o chip A20 Pro, melhorias importantes de bateria e um novo sistema de câmeras. Não houve iPhone 18 básico, que ficou para outro momento. Vieram também Apple Watch Series 12, Apple Watch Ultra 4 e AirPods 5. Mas todos viraram coadjuvantes quando Ternus mostrou o Duo, primeiro iPhone dobrável da história da empresa.
Aberto, ele tem tela interna de 7,6 polegadas, 50% maior que a do iPhone 18 Pro Max. Fechado, oferece uma tela externa de 5,4 polegadas. Roda duas aplicações simultaneamente, aceita Apple Pencil e tenta resolver uma velha ambição da indústria: colocar algo próximo de um pequeno tablet dentro do bolso. No Brasil, a versão de 256 GB parte de R$ 21.999. Com 2 TB, chega a R$ 30.999. Dobrável mesmo será o orçamento.
O mais interessante, porém, não está na dobradiça. Está na estratégia.
Durante anos, Tim Cook trabalhou para convencer investidores de que a Apple era muito mais do que o iPhone. Serviços, relógios, fones, computadores e assinaturas ajudaram a diminuir a percepção de dependência do aparelho. Ternus parece começar sua gestão fazendo um movimento intelectualmente diferente. Em vez de fugir do iPhone, abraça o iPhone. Na sua primeira apresentação como CEO, colocou o aparelho como o principal centro pessoal para a era da inteligência artificial.
A lembrança de Steve Jobs é inevitável. Em 2001, quando muita gente anunciava a morte do computador pessoal, Jobs fez o contrário do esperado. Disse que o Mac continuaria no centro da experiência digital. Câmeras, tocadores de música e outros aparelhos orbitariam ao seu redor. Meses depois apareceu o iPod. A tese não era matar o computador. Era fazê-lo comandar uma rede de novos produtos.
Ternus parece apostar em lógica parecida. Enquanto parte do Vale do Silício tenta descobrir qual objeto substituirá o smartphone na era da inteligência artificial, a Apple está dizendo que talvez a pergunta esteja errada. O telefone pode não desaparecer. Pode apenas ganhar novas formas, novas telas e uma inteligência cada vez mais presente. Nesse cenário, o Duo importa menos porque dobra e mais porque amplia aquilo que um iPhone pode ser.
Wall Street ainda não comprou integralmente a história. O Citi chamou o Duo de maior nova categoria de hardware da Apple desde Apple Watch e AirPods. Goldman Sachs viu vantagem financeira na concentração da linha em aparelhos premium. A Needham foi mais desconfiada e avaliou que uma tela maior não resolve os desafios estruturais da empresa, especialmente seu atraso percebido em inteligência artificial. É uma divergência saudável. Um celular de US$ 1.999 dificilmente conquistará o planeta imediatamente, ainda mais em um segmento, o dos dobráveis, que representa menos de 5% das vendas globais de smartphones.
Talvez por isso a estreia de Ternus seja mais interessante como declaração de princípios do que como revolução tecnológica. Ele recebeu de Cook uma Apple gigantesca, rentável e extraordinariamente eficiente, mas pressionada a provar que ainda consegue inventar novas categorias e competir em inteligência artificial. Sua primeira mensagem foi curiosamente conservadora e ambiciosa ao mesmo tempo: não precisamos matar nosso melhor produto para construir o futuro.
Há algo muito Apple nisso. Quando todo mundo pergunta o que vem depois do iPhone, a empresa responde com mais iPhone. Só que, desta vez, ele abre ao meio.




