
Durante décadas, Hollywood imaginou máquinas inteligentes decidindo que os humanos eram um problema. Era ficção científica. Agora, algumas das pessoas que constroem as máquinas começaram a fazer a mesma pergunta. A inteligência artificial poderia escapar do nosso controle e, no limite, acabar conosco? A resposta mais responsável hoje é pouco cinematográfica: ninguém sabe.
Nesta semana, Jacob Coxon, pesquisador da Anthropic especializado no treinamento de modelos de IA, decidiu deixar a empresa. Segundo o Wall Street Journal, ele não queria continuar participando de uma corrida para desenvolver sistemas capazes de melhorar a si mesmos e que, na sua avaliação, poderiam algum dia escapar do controle humano. Não é exatamente o tipo de pedido de demissão que aparece todos os dias no LinkedIn.
Coxon não está sozinho. Uma pesquisa com 2.778 pesquisadores que publicaram em importantes conferências e periódicos de inteligência artificial encontrou um resultado desconfortável. Embora 68% considerassem resultados positivos de uma IA super-humana mais prováveis que os negativos, entre 38% e 51% dos entrevistados atribuíram pelo menos 10% de probabilidade a resultados tão ruins quanto a extinção humana.
O número assusta. Mas precisa ser interpretado corretamente. Não significa que exista uma equação científica mostrando 10% de chance de a humanidade acabar. Estamos falando da estimativa subjetiva de pesquisadores sobre um futuro cheio de variáveis desconhecidas. Ainda assim, quando Geoffrey Hinton, Yoshua Bengio, Sam Altman, Demis Hassabis e Dario Amodei assinam uma declaração dizendo que o risco de extinção provocado pela IA merece atenção semelhante à dedicada a pandemias e guerra nuclear, talvez seja prudente ouvir antes de rir.
Mas existe outro lado nessa história. A humanidade tem uma relação curiosa com tecnologias novas. Primeiro, imaginamos que elas vão resolver tudo. Depois, imaginamos que vão destruir tudo. Por fim, descobrimos que normalmente fazem um pouco de cada coisa.
A eletricidade, por exemplo, foi recebida com temores reais sobre segurança. E eles não eram completamente irracionais. Os primeiros sistemas elétricos eram de fato perigosos até que padrões técnicos, infraestrutura e regras tornassem seu uso muito mais seguro. Hoje parece absurdo imaginar cidades sem eletricidade.
A automação repetiu o roteiro. Em 2013, um famoso estudo de Oxford estimou que 47% dos empregos americanos poderiam estar sujeitos à computadorização. Anos depois, pesquisas continuaram mostrando forte receio de substituição do trabalho humano. Em 2025, 64% dos americanos ouvidos pelo Pew Research Center acreditavam que a IA reduziria o número de empregos nas duas décadas seguintes. Entre especialistas em IA, porém, esse percentual era de 39%.
Não significa que os temores estejam errados. Algumas profissões desaparecem. Empresas quebram. Fortunas evaporam. Outras atividades nascem. O erro recorrente está em transformar uma tendência em uma linha reta infinita.
Os mercados de tecnologia também funcionam assim. Inovação atrai dinheiro. Dinheiro produz expectativas. Expectativas exageradas atraem ainda mais dinheiro. Quando a realidade não acompanha a promessa, vem a decepção. O Gartner chama isso de Hype Cycle: inovação, pico de expectativas, desilusão, aprendizado e, finalmente, produtividade. Em seu relatório de 2026 sobre IA, a consultoria diz que o investimento continua forte, mas que a geração de valor permanece desigual.
A internet viveu algo parecido. A bolha das empresas "ponto com" terminou em um brutal ajuste de mercado no início dos anos 2000. A bolha estourou. A internet não. Depois dela vieram Google, Amazon, Facebook, Netflix, computação em nuvem e praticamente toda a economia digital que carregamos hoje no bolso.
Talvez aconteça algo parecido com a inteligência artificial. O entusiasmo provavelmente está exagerado em algumas áreas. Muitas empresas chamadas de IA desaparecerão. Avaliações cairão. Promessas serão esquecidas. Ao mesmo tempo, a tecnologia continuará melhorando e entrando silenciosamente em hospitais, escritórios, fábricas, bancos e celulares.
Isso, porém, não elimina o risco mais extremo. Existe uma diferença importante entre errar uma previsão sobre a internet e errar uma previsão sobre uma tecnologia capaz de agir autonomamente. Se uma possibilidade tem impacto gigantesco, mesmo uma probabilidade pequena merece investigação.
Só não podemos confundir investigar risco com declarar o fim do mundo.
A pergunta interessante, portanto, não é se a IA vai matar todos nós. Ainda não temos evidências para responder isso. A pergunta é se conseguiremos atravessar mais um ciclo tecnológico sem repetir nosso velho hábito de oscilar entre duas certezas igualmente perigosas: primeiro acreditar que uma tecnologia salvará a humanidade e depois acreditar que ela acabará com ela.
Talvez a inteligência artificial não seja nosso próximo exterminador. Pode ser apenas a próxima grande tecnologia que primeiro superestimamos, depois subestimamos e, finalmente, aprendemos a usar.




