
Estou em São Paulo acompanhando o SP2B, o São Paulo Beyond Business, que acontece de 9 a 16 de agosto no Parque Ibirapuera. A proposta do evento é reunir inovação, negócios, cultura e empreendedorismo em uma mesma conversa, aproximando empresas, investidores, startups, líderes e pessoas interessadas em entender o que está mudando agora e o que pode mudar nos próximos anos.
É impossível circular por aqui em 2026 sem esbarrar, quase literalmente, na inteligência artificial. Ela aparece nas discussões sobre comunicação, gestão, criatividade, produtividade, profissões, educação e modelos de negócio. E faz sentido. O Stanford AI Index 2026 mostra que 88% das organizações pesquisadas já utilizavam inteligência artificial em pelo menos uma função em 2025. A IA deixou definitivamente de ser uma conversa sobre o futuro. Ela já é parte do presente.
Assisti a muitos painéis nesses primeiros dias. Ouvi previsões sobre inteligência artificial, novos modelos de negócio, comportamento, influência e futuro do trabalho. Mas uma conversa específica ficou na minha cabeça. Foi o encontro entre Silvio Meira, cientista e uma das grandes referências brasileiras em tecnologia, e Elisama Santos, psicanalista e escritora, em um painel sobre o futuro da influência, mediado pela jornalista Renata Ceribelli. O debate fez parte do Summit Globo, realizado em 10 de agosto no Auditório Ibirapuera.
Talvez tenha ficado comigo porque, em determinado momento, Silvio colocou em palavras uma ideia que ajuda a organizar parte da confusão atual sobre inteligência artificial. Em vez de tratar esses sistemas como uma espécie de cérebro humano digital, ele falou em “imitação algorítmica”. A máquina processa uma quantidade gigantesca de informação, reconhece padrões e consegue produzir resultados que parecem, muitas vezes assustadoramente, humanos.
E foi daí que saí com a principal provocação desta coluna.
IA é imitação e não criação.
É uma afirmação que certamente pode render uma discussão técnica e filosófica de algumas horas. E não significa dizer que a inteligência artificial não produz algo novo. Produz. Ela gera textos que nunca haviam sido escritos daquela maneira, imagens que nunca tinham existido e soluções que podem surpreender até quem fez o pedido. A questão é outra: novidade e criação humana são necessariamente a mesma coisa?
A IA aprende padrões a partir daquilo que já foi produzido e consegue recombiná-los com uma competência extraordinária. Nós também somos influenciados pelo que vimos, lemos, ouvimos e vivemos. Ninguém cria a partir do nada. Mas existe uma diferença importante: a criação humana não nasce apenas do repertório. Nasce também da experiência de estar vivo.
Nós criamos a partir de uma infância, de um medo, de uma ambição, de uma conversa atravessada, de um fracasso, de uma paixão, de uma perda, de uma lembrança que apareceu quando não deveria aparecer. Criamos porque alguma coisa nos incomoda. Criamos porque queremos mudar alguma coisa. Criamos porque alguém nos provoca, porque discordamos, porque erramos e porque, às vezes, nem sabemos explicar direito de onde veio uma ideia.
A máquina não teve infância.
E talvez essa seja uma frase mais importante do que parece.
Elisama trouxe uma imagem muito simples durante o painel. Ao cantar para um filho, sua voz nunca é exatamente a mesma. Existe o dia do cansaço, o dia da pressa, o dia da alegria, o dia em que alguma coisa aconteceu e mudou o tom de voz antes mesmo que ela decidisse conscientemente mudá-lo. O nosso corpo participa da nossa comunicação. Nós não apenas processamos o mundo. Somos afetados por ele.
É exatamente aí que a discussão deixa de ser filosófica e começa a interessar às empresas.
Se praticamente todas as organizações tiverem acesso a sistemas capazes de escrever bons textos, desenvolver códigos, montar apresentações, produzir imagens, analisar dados e organizar informações em segundos, onde ficará a vantagem competitiva?
Certamente não estará apenas em fazer mais rápido aquilo que todos também conseguem fazer mais rápido.
Esse é um ponto que me parece subestimado em parte da euforia atual. A inteligência artificial está barateando a execução de uma quantidade gigantesca de tarefas cognitivas. Quando a execução fica abundante, o valor migra para outro lugar. Passa para a definição do problema, para a escolha, para o julgamento, para a capacidade de perceber contexto e, principalmente, para saber o que vale a pena fazer.
Silvio Meira foi direto ao discutir qual habilidade deveria preocupar líderes e executivos nesse novo cenário: pensar. Segundo ele, muitos tomadores de decisão passaram tempo demais simplesmente seguindo processos conhecidos, justamente quando a tecnologia está ampliando brutalmente o número de caminhos possíveis. Quanto mais alternativas a máquina oferece, mais necessário fica o julgamento humano para escolher entre elas.
Curiosamente, os dados do mercado de trabalho caminham na mesma direção. O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta o pensamento analítico como a competência central mais valorizada pelos empregadores. Resiliência, flexibilidade, liderança e influência social também estão entre as habilidades consideradas essenciais. A tecnologia avança e, paradoxalmente, o mercado começa a valorizar ainda mais capacidades profundamente humanas.
Talvez exista outro problema escondido nessa história.
Toda vez que inventamos uma tecnologia para economizar tempo, encontramos rapidamente uma maneira de preencher o tempo economizado com mais trabalho.
Elisama lembrou disso ao falar da promessa original da digitalização. O caixa do supermercado ganhou sistemas mais rápidos, mas isso não significou necessariamente uma vida mais tranquila para quem estava ali. Significou também atender mais pessoas no mesmo intervalo. A comunicação ficou instantânea e nós passamos a responder mais mensagens. O acesso à informação explodiu e agora carregamos a estranha sensação de que deveríamos acompanhar tudo o que acontece.
A IA corre o risco de repetir essa história numa escala ainda maior.
Uma pessoa que produzia duas apresentações passa a produzir 10. Quem escrevia três relatórios passou a produzir 20. Quem respondia 50 mensagens agora pode responder 200.
Isso é produtividade?
Do ponto de vista matemático, provavelmente.
Do ponto de vista humano, depende.
Talvez a pergunta mais importante sobre inteligência artificial não seja quanto trabalho ela consegue fazer por nós, mas o que faremos com a capacidade que ela nos devolver.
Se utilizarmos a IA apenas para produzir mais coisas, teremos criado uma maravilhosa máquina de acelerar a nossa própria exaustão. Se a utilizarmos para retirar das pessoas tarefas repetitivas e abrir espaço para pensamento, relacionamento, criatividade e decisão, aí começa uma transformação muito mais interessante.
Existe ainda uma ironia divertida nisso tudo.
Passamos décadas tentando eliminar das empresas aquilo que parecia excessivamente humano. Queríamos processos previsíveis, respostas padronizadas, comunicação perfeita, profissionais eficientes, comportamento replicável e decisões que coubessem em uma planilha.
Agora construímos máquinas melhores do que nós justamente nisso.
Talvez seja a hora de parar de tentar vencê-las no campeonato da previsibilidade.
Elisama chamou atenção para algo parecido quando falou sobre influência. Em um ambiente tomado por imagens perfeitas, textos perfeitos e vidas aparentemente perfeitas, as pessoas começaram a procurar justamente quem mostra o erro, a dúvida e a imperfeição. Queremos lembrar que existe alguém do outro lado. Queremos encontrar aquilo que não parece ter saído de um molde.
A perfeição está ficando barata.
Em poucos segundos uma ferramenta consegue entregar uma fotografia impecável, um texto correto, uma apresentação organizada e uma resposta educada. Isso muda inclusive o que entendemos como qualidade. Quando qualquer pessoa consegue produzir algo tecnicamente perfeito, a perfeição deixa de ser diferencial.
O diferencial passa a ser ter algo original para dizer.
É por isso que a distinção entre imitação e criação importa tanto.
Não porque a IA seja ruim em imitar. É justamente o contrário. Ela está ficando extraordinariamente boa. E vai ficar ainda melhor.
O erro seria concluir que, porque uma máquina consegue reproduzir muito bem o resultado de uma atividade humana, deixou de existir valor no humano que estava por trás daquela atividade.
Uma boa entrevista não é apenas a transcrição das perguntas e respostas. Existe olhar, hesitação, silêncio, insistência, percepção e mudança de rumo. Uma boa liderança não é uma sequência perfeita de frases motivacionais. Existe confiança construída, contexto, conflito e responsabilidade. Uma boa ideia não é apenas uma combinação improvável de palavras. Existe intenção.
Silvio usou uma expressão interessante no painel: agência epistêmica. Em termos menos acadêmicos, é nossa capacidade de utilizar conhecimento para formar julgamento e tomar decisões. Podemos entregar à máquina uma parcela cada vez maior da execução. O que não podemos fazer sem pagar um preço enorme é entregar também nossa capacidade de decidir.
A IA deveria nos ajudar a enxergar mais possibilidades, e não escolher por nós qual futuro queremos.
Saí do painel no SP2B menos preocupado com uma pergunta que domina muitas discussões sobre inteligência artificial: o que as máquinas ainda conseguirão fazer?
Estou mais interessado em outra.
O que nós faremos quando elas conseguirem?
Porque talvez o maior risco não seja a inteligência artificial ficar humana demais.
É nós ficarmos automáticos demais.
Quanto mais barata ficar a resposta, mais valiosa ficará a pergunta. Quanto mais fácil for produzir conteúdo, mais importante será ter o que dizer. Quanto mais perfeita ficar a imitação, mais valor terão repertório, julgamento, sensibilidade, coragem e intenção.
Que a IA fique excelente em imitar.
Nós teremos de continuar aprendendo a criar.


