
Criada para enfrentar desafios que muitas transportadoras evitam, a startup carioca naPorta cresceu apostando em áreas complexas da operação urbana. Agora, cinco anos depois da fundação, a empresa incorpora inteligência artificial para tornar sua atuação mais eficiente e previsível.
Toda startup gosta de dizer que resolve um problema real. Poucas conseguem apontar exatamente qual é esse problema. A naPorta consegue.
Fundada há cinco anos, a empresa nasceu para atuar onde a operação tradicional costuma encontrar mais dificuldades: comunidades, regiões com acesso limitado, grandes centros urbanos sem áreas adequadas para carga e descarga e condomínios sem estrutura para recebimento de encomendas.
Enquanto boa parte do mercado concentra esforços nas operações mais previsíveis, a startup decidiu construir seu negócio justamente nas exceções. E foi nessa aposta que encontrou espaço para crescer.
A trajetória da empresa começou de forma modesta. A fundadora e CMO, Katrine, deixou São Paulo para se mudar para o Rio de Janeiro e colocar o projeto de pé. O primeiro espaço da operação tinha menos de 25 metros quadrados. Hoje, cinco anos depois, a naPorta opera em um galpão de 5 mil metros quadrados, processa cerca de 21 mil mercadorias por dia e já está em sua terceira rodada de investimentos.
O crescimento foi impulsionado por uma tese simples: resolver problemas que outras empresas preferiam evitar.
— A gente resolve dores da logística que são muito complexas dentro dos sistemas urbanos — afirmou Katrine durante o Web Summit Rio.
A proposta da empresa vai além da chamada última milha. A naPorta atua em diferentes etapas da cadeia logística, incluindo coleta, transporte, logística reversa, entregas interestaduais e serviços dedicados. Ao longo dos anos, também desenvolveu uma plataforma própria para integrar toda a operação, desde a entrada dos pedidos até a entrega final.
A solução surgiu da percepção de que muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para conectar sistemas, acompanhar mercadorias em tempo real e reagir rapidamente quando surgem problemas operacionais. Em muitos casos, embarcadores e operadores trabalham com sistemas desconectados, planilhas e processos manuais que aumentam o risco de erros.
Foi a partir dessa realidade que a empresa decidiu investir em tecnologia para centralizar informações e dar mais visibilidade à operação.
Nos últimos meses, a naPorta deu mais um passo nessa evolução ao incorporar inteligência artificial à sua torre de controle. Diferentemente de muitas startups que nasceram embaladas pelo atual entusiasmo em torno da IA, a empresa já tinha uma operação consolidada antes de adotar a tecnologia.
O objetivo é usar inteligência artificial para ampliar a capacidade de monitoramento e acelerar a tomada de decisões. O sistema acompanha informações em tempo real e identifica situações que podem comprometer entregas, como alagamentos, áreas de risco, interrupções em rotas, aumento de perdas ou atrasos operacionais.
Quando identifica um potencial problema, a plataforma gera alertas para que as equipes possam agir antes que o impacto chegue ao cliente.
A necessidade dessa agilidade fica evidente no tamanho da operação.
— Se eu processo hoje 21 mil mercadorias, tenho 21 mil possibilidades de falha — disse Katrine. — Eu preciso ter uma IA para consolidar essas informações mais rapidamente e permitir que meu time aja.
A frase resume um dos maiores desafios da logística moderna. Quanto maior a escala, maior o número de variáveis capazes de comprometer uma entrega. Nesse contexto, a inteligência artificial não substitui pessoas. Ela ajuda operadores a identificar riscos, priorizar ações e responder mais rapidamente aos problemas.
Mas talvez a principal lição da história da naPorta esteja longe da tecnologia.
Questionada sobre quais conselhos daria para quem deseja criar uma startup, Katrine foi direta ao afirmar que o empreendedor precisa abandonar o ego e estar disposto a fazer de tudo um pouco.
— Não existe essa de eu sou CEO ou eu sou CMO. Quando você está construindo uma empresa, você vende, atende cliente, acompanha a operação, carrega caixa se precisar. Você tem que ser pau para toda obra.
A executiva também destacou a importância de construir relacionamentos desde o primeiro dia.
— No primeiro ano, participamos de 35 eventos. Eu precisava construir credibilidade em um mercado onde já existiam empresas com décadas de atuação. Então eu precisava estar presente.
Essa presença continua sendo uma prioridade. O Web Summit Rio marcou o terceiro ano consecutivo da naPorta no evento. Segundo Katrine, a empresa acompanhou sua própria evolução dentro da feira, passando pelas categorias Alpha, Beta e agora Growth.
— Além da exposição, o Web Summit amplia nossa conexão e reforça que estamos aqui. Muita gente chega e fala que já conhece a naPorta, acompanha nosso trabalho e gosta do que estamos construindo.
Para a CMO, o evento também aproxima investidores, parceiros e clientes em um momento importante para a expansão da companhia.
Em um ambiente em que boa parte das startups tenta chamar atenção para a próxima grande tendência tecnológica, a naPorta construiu sua trajetória de forma menos glamourosa, mas talvez mais eficiente: identificando um problema real, encontrando uma solução prática e crescendo a partir dela. A inteligência artificial é apenas o capítulo mais recente dessa história.




