
O Web Summit Rio é um festival de tendências. Inteligência artificial, agentes autônomos, transformação digital e produtividade dominam praticamente todas as conversas. Mas, caminhando pelos corredores do evento, fica claro que a inovação de verdade continua surgindo da mesma forma de sempre: da tentativa de resolver problemas reais.
Foi justamente isso que encontrei em duas startups gaúchas que participam do evento neste ano.
A primeira é a Engage, plataforma criada para ajudar empresas de varejo e serviços a aumentar o lifetime value dos clientes. Embora a empresa tenha dez anos de atuação em consultoria, o software nasceu apenas em 2025, depois que os fundadores perceberam que vários clientes enfrentavam a mesma dificuldade: manter relacionamento, recorrência e engajamento ao longo do tempo.
A solução utiliza inteligência artificial para criar uma espécie de motor de engajamento, capaz de identificar oportunidades de interação e retenção. Agora, a startup inicia sua fase de tração, conquistando os primeiros clientes pagantes e ajustando seu modelo de negócio para ampliar a adoção da plataforma.
Para os fundadores, o principal ganho do Web Summit tem sido a validação externa. Depois de testar a ferramenta dentro de sua própria rede de contatos, o evento oferece a oportunidade de apresentar o produto para empreendedores, investidores e potenciais clientes de diversos países.
A segunda startup é a Meta Health, criada a partir de pesquisas desenvolvidas na UFRGS e focada em treinamento médico por realidade virtual.
A plataforma permite que estudantes de medicina realizem atendimentos simulados em ambientes imersivos. Os alunos podem entrevistar pacientes, solicitar exames, realizar avaliações clínicas, formular diagnósticos e definir tratamentos. Todo o processo é registrado e posteriormente analisado por professores e alunos, gerando feedbacks detalhados sobre o desempenho.
O objetivo é aumentar a qualidade da formação prática dos futuros médicos, utilizando tecnologia para criar experiências que seriam difíceis de reproduzir de forma escalável em ambientes tradicionais de ensino.
Com cerca de um ano de operação como empresa — embora o projeto de pesquisa exista há mais tempo —, a Meta Health também aproveita o Web Summit para ampliar conexões internacionais. Durante os primeiros dias do evento, os fundadores relataram conversas com potenciais parceiros e clientes do México, Costa Rica, Estados Unidos e Europa.

As duas empresas atuam em mercados completamente diferentes, mas compartilham uma característica importante. Nenhuma delas nasceu para perseguir uma tendência. Ambas surgiram para resolver dores específicas de clientes e usuários.
Num ambiente em que muitas vezes o discurso tecnológico parece correr mais rápido do que a realidade, talvez seja justamente esse o principal diferencial das startups que conseguem sobreviver: transformar problemas concretos em oportunidades de negócio.
E, pelo menos neste Web Summit Rio, o Rio Grande do Sul mostrou que continua produzindo exatamente esse tipo de empreendedor.


