
Existe uma tendência de tratar semicondutores como um tema distante, restrito a engenheiros, pesquisadores e gigantes da tecnologia. É um erro. Hoje, os chips estão no centro da disputa econômica mais relevante do planeta. São eles que viabilizam a inteligência artificial, os veículos elétricos, os sistemas de defesa, a automação industrial e praticamente toda a infraestrutura digital que sustenta a economia moderna.
É nesse contexto que Porto Alegre recebe, entre os dias 17 e 19 de junho, o SemiCon-LAC 2026, simpósio que reúne representantes da América Latina, Estados Unidos, China, Coreia do Sul, Taiwan, União Europeia e Malásia no Tecnopuc. Mais do que um evento setorial, trata-se de uma discussão sobre o futuro da competitividade econômica e tecnológica da região.
Os números ajudam a entender a dimensão do tema. Segundo dados do Gartner, a indústria global de semicondutores alcançou US$ 793 bilhões em receita em 2025, crescimento de 21% em relação ao ano anterior. O principal motor dessa expansão é a inteligência artificial, cuja demanda por capacidade computacional cresce em ritmo sem precedentes.
As projeções indicam que os investimentos globais em infraestrutura de IA devem superar US$ 1,3 trilhão já em 2026. Em poucos anos, os chips destinados a aplicações de inteligência artificial poderão representar mais da metade de todas as vendas da indústria mundial de semicondutores.
Mas a importância desse debate vai muito além dos números.
A pandemia e as tensões geopolíticas dos últimos anos expuseram uma vulnerabilidade que poucos percebiam. Grande parte da produção mundial de semicondutores permanece concentrada no Pacífico Leste, especialmente em Taiwan, Coreia do Sul e China. Quando essa cadeia sofreu interrupções, faltaram componentes para automóveis, equipamentos médicos, eletrônicos e setores inteiros da indústria global.
O resultado foi uma corrida internacional pela diversificação da produção. Estados Unidos, União Europeia e China passaram a investir centenas de bilhões de dólares para fortalecer suas cadeias produtivas e reduzir dependências estratégicas. Semicondutores deixaram de ser apenas um produto industrial. Tornaram-se uma questão de soberania nacional.
É justamente nessa reconfiguração global que surge uma oportunidade para o Brasil e, em especial, para o Rio Grande do Sul.
O Estado reúne um conjunto raro de ativos. Universidades com tradição em microeletrônica, centros de pesquisa consolidados, empresas especializadas e uma base industrial capaz de transformar conhecimento em negócios. Nomes como Ceitec, HT Micron e itt CHIP fazem parte de um ecossistema que vem sendo construído há décadas e que hoje coloca o Rio Grande do Sul em posição de destaque no cenário latino-americano.
Não por acaso, o Estado busca se consolidar como o principal hub brasileiro de semicondutores. Mais do que fabricar componentes, a estratégia passa por atrair investimentos, desenvolver talentos, ampliar atividades de design e encapsulamento e fortalecer uma cadeia produtiva capaz de gerar valor localmente.
O diferencial gaúcho talvez esteja menos nas máquinas e mais nas pessoas. Em uma indústria que enfrenta escassez global de profissionais qualificados, o capital humano tornou-se um ativo tão importante quanto a infraestrutura. Décadas de investimento em pesquisa e pós-graduação ajudaram a criar uma base técnica que hoje desperta o interesse de empresas e parceiros internacionais.
Essa aposta na formação de talentos é apontada como um dos pilares da estratégia gaúcha para o setor. Como resume Simone Stulp, decana associada da Escola Politécnica da PUCRS:
— O RS vem construindo, nos últimos anos, um programa estruturado para o setor de semicondutores, e o SemiCon-LAC materializa a vontade e a necessidade de estabelecer conexões concretas para o fortalecimento deste ecossistema para nossa capital e nosso Estado. A PUCRS tem se posicionado neste setor no eixo de formação de talentos, fundamental para esta indústria baseada em conhecimento.
A observação ajuda a explicar por que o Rio Grande do Sul aparece hoje como um dos principais candidatos a liderar a expansão da indústria de semicondutores no Brasil. Em um mercado global que disputa profissionais especializados com a mesma intensidade com que disputa investimentos, conhecimento tornou-se um diferencial competitivo decisivo.
O SemiCon-LAC 2026 nasce exatamente dessa convergência entre conhecimento, indústria e estratégia. Ao reunir lideranças globais, governos, universidades e empresas em Porto Alegre, o evento coloca o Rio Grande do Sul no centro de uma discussão que ajudará a definir os rumos da economia digital nas próximas décadas.
Durante muito tempo, o Brasil assistiu às grandes revoluções tecnológicas acontecerem de longe. Desta vez, existe a chance de participar da construção de uma nova cadeia global de valor desde o início.
E essa talvez seja a principal mensagem do encontro realizado no Tecnopuc. Em um mundo cada vez mais dependente da inteligência artificial, discutir chips é discutir desenvolvimento econômico, competitividade e futuro.
O Rio Grande do Sul entendeu isso.





