
A inteligência artificial já escreveu poemas, criou imagens e ajudou milhões de pessoas a responder e-mails. Mas uma nova onda está começando a ganhar força: a transformação de qualquer profissional em criador de software. Essa é a aposta da Replit, uma das empresas que mais crescem no mercado de desenvolvimento assistido por IA e que acaba de ultrapassar a marca de 60 milhões de usuários em todo o mundo.
Durante entrevista exclusiva concedida ao colunista no Web Summit Rio, Marcelo Echeverria, Growth Lead Brazil da Replit, apresentou uma visão que ajuda a explicar para onde o mercado está caminhando. Se nos últimos anos a IA generativa foi utilizada principalmente para criar conteúdo, a próxima fase será a criação de produtos, negócios e empresas inteiras por pessoas sem formação técnica.
O movimento acontece em um momento em que o desenvolvimento de software passa por uma das maiores transformações de sua história. Ferramentas baseadas em inteligência artificial estão reduzindo drasticamente a barreira de entrada para criar aplicativos, sites, sistemas internos e plataformas digitais. O que antes exigia equipes de desenvolvedores, designers, gestores de produto e investimentos significativos pode agora ser iniciado por uma única pessoa utilizando linguagem natural.
Segundo Echeverria, hoje é possível construir um aplicativo completo, com autenticação de usuários, sistema de pagamentos, hospedagem e domínio próprio, utilizando apenas comandos em linguagem natural. A provocação feita por ele durante a conversa é forte.
— Hoje, você consegue criar um negócio inteiro em uma tarde.
A afirmação pode parecer exagerada, mas encontra respaldo em uma tendência observada por todo o mercado. O relatório State of AI, da McKinsey, mostrou que a adoção de inteligência artificial nas empresas atingiu níveis recordes nos últimos anos, enquanto plataformas de desenvolvimento assistido por IA se tornaram uma das categorias mais quentes do setor de tecnologia. Paralelamente, gigantes como OpenAI, Google, Anthropic e Microsoft vêm investindo bilhões de dólares em ferramentas que automatizam partes cada vez maiores do processo de criação de software.
Um dos pontos mais interessantes da entrevista foi a mudança de perfil de quem está construindo tecnologia. Durante décadas, criar software foi uma atividade restrita a profissionais altamente especializados. Agora, áreas como marketing, recursos humanos, financeiro e produto começam a desenvolver suas próprias soluções.
O exemplo citado por Echeverria ajuda a ilustrar esse cenário. Quantas organizações possuem aquela planilha que há anos sustenta um processo crítico do negócio? Com as novas ferramentas de IA, essas planilhas podem ser transformadas em sistemas completos, acessíveis para toda a empresa, sem a necessidade de iniciar longos projetos de desenvolvimento.
Nas grandes corporações, a porta de entrada costuma ser a área de produto. Profissionais que antes dependiam integralmente de equipes técnicas para validar ideias agora conseguem construir protótipos e aplicações funcionais por conta própria. A consequência é uma redução significativa do tempo entre identificar um problema e testar uma solução.
A empresa também destacou a crescente adoção da plataforma por grandes organizações. Entre os clientes citados estão iFood e Ambev, além de empresas dos setores farmacêutico e financeiro. O interesse dessas companhias não está apenas na redução de custos, mas principalmente na velocidade de experimentação. Em um cenário de mudanças aceleradas, quem consegue testar mais rápido tende a aprender mais rápido.
Talvez o insight mais relevante da conversa tenha sido a visão sobre a próxima etapa da inteligência artificial. Segundo o executivo, o mercado já passou pela fase da curiosidade, quando as pessoas se impressionavam ao gerar textos e imagens. Também está superando a fase dos protótipos e das páginas de demonstração criadas por IA. O foco agora passa a ser a construção de produtos reais.
Mas nem isso será suficiente por muito tempo.
A aposta da Replit é que a próxima grande revolução será o surgimento de agentes inteligentes capazes não apenas de criar produtos, mas também de ajudar a vendê-los, promovê-los e distribuí-los. Em outras palavras, a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de criação para se tornar uma parceira operacional dos negócios.
Essa visão está alinhada com uma tendência crescente no Vale do Silício. Diversas empresas já trabalham em agentes capazes de executar tarefas complexas de forma autônoma, desde atendimento ao cliente até prospecção comercial e automação de processos internos. O conceito de um empreendedor individual operando uma estrutura antes reservada a equipes inteiras deixa de parecer ficção científica e começa a ganhar contornos práticos.
Durante a entrevista, Echeverria resumiu essa mudança em uma frase que provavelmente será lembrada nos próximos anos.
— Já passamos da fase da poesia no ChatGPT. Agora estamos construindo produtos reais.
Se essa transformação realmente se consolidar, a grande mudança não será tecnológica. Será econômica. O custo para testar uma ideia, lançar um produto ou abrir um negócio digital continuará caindo rapidamente. E, como aconteceu em outras revoluções tecnológicas, os vencedores provavelmente não serão apenas os que dominam a tecnologia, mas aqueles que identificarem os problemas certos para resolver.
A inteligência artificial está tornando o software mais acessível. E, quando criar tecnologia deixa de ser uma barreira, a vantagem competitiva passa a ser a criatividade, o conhecimento de mercado e a capacidade de execução. Para milhões de profissionais e empreendedores, isso pode representar uma das maiores oportunidades de negócios da década.






