
Durante anos, o roteiro parecia imutável. Quem queria entender para onde a tecnologia caminhava precisava olhar para o Vale do Silício. As grandes ideias surgiam lá, os investidores estavam lá, e o resto do mundo corria atrás para copiar, adaptar ou importar.
Na coletiva de imprensa do Web Summit Rio, Paddy Cosgrave insistiu em uma tese que, há poucos anos, soaria quase herética no setor: o futuro não será decidido apenas pelo Vale do Silício. A inovação deixou de ter um único centro de gravidade e passou a surgir de diferentes regiões do mundo.
A inteligência artificial é um dos motores dessa mudança. Segundo Cosgrave, o número de empreendedores individuais presentes no evento mais do que dobrou em relação ao ano passado. Ferramentas de IA permitem que uma única pessoa desenvolva produtos e negócios em uma velocidade que antes exigia equipes inteiras.
A consequência é simples: o talento importa cada vez mais do que a localização.
Mas existe uma diferença entre ouvir falar da revolução tecnológica e entender como ela chega ao dia a dia das empresas.
Se Cosgrave olha para as transformações globais, empresários gaúchos presentes no evento ajudam a traduzir o que essas mudanças significam na prática.
Antônio Veiga Júnior, vice-presidente da Rede Farmácias Associadas, vê na tecnologia uma oportunidade para integrar informações, melhorar a comunicação e tornar a gestão mais eficiente. Para ele, o desafio não está apenas em adotar novas ferramentas, mas em adaptá-las à realidade de empresas de diferentes portes.

A avaliação chama atenção porque vem de um setor tradicionalmente mais analógico. Segundo Veiga, o varejo ainda precisa avançar muito em digitalização e inteligência artificial. A tecnologia deixou de ser uma tendência distante e passou a ser uma necessidade competitiva.
A mesma percepção aparece nos debates sobre cidades inteligentes e conectividade. Empresas e governos começam a entender que as relações entre pessoas, serviços e comunidades serão cada vez mais mediadas por tecnologia. Quem compreender essa transformação primeiro terá vantagem.
Isso ajuda a explicar por que cidades antes pouco conhecidas no mapa da inovação ganharam protagonismo. Cosgrave citou Shenzhen, na China, como exemplo de local que há poucos anos era praticamente desconhecido fora do setor tecnológico e hoje se tornou referência mundial.
Mas talvez o exemplo mais interessante esteja no Brasil.
Ao comentar o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, Cosgrave afirmou que o Pix pode revolucionar o setor financeiro global. Para ele, a ferramenta reduz custos, elimina intermediários e desafia modelos de negócios que dominam os pagamentos digitais há décadas.
O comentário chama atenção porque nos acostumamos ao Pix tão rapidamente que esquecemos o quanto ele impressiona executivos estrangeiros.
Mas o Web Summit deixou outro aprendizado importante para as empresas brasileiras: nem toda vantagem competitiva virá da tecnologia.
Mariana Guimarães, diretora de Marketing e Inovação da Guimarães Alimentos, empresa gaúcha presente no evento, destacou um padrão observado em marcas como Farm, Havaianas, Granado e Senna. Nenhuma delas tenta esconder suas origens para parecer mais internacional. Pelo contrário. Transformam a brasilidade em parte central de sua proposta de valor.
A reflexão é relevante em um ambiente dominado pelas discussões sobre inteligência artificial. A tecnologia pode aumentar produtividade, acelerar processos e abrir mercados. Mas continua incapaz de substituir identidade, propósito e posicionamento.
Para Mariana, a principal lição é que existe espaço para marcas brasileiras conquistarem relevância global quando conseguem combinar qualidade, autenticidade e uma presença consistente nos mercados onde atuam.

Talvez a grande oportunidade do Brasil esteja justamente nessa combinação.
De um lado, a capacidade de adotar rapidamente novas tecnologias, como aconteceu com o Pix. De outro, a possibilidade de transformar criatividade, cultura e identidade em ativos globais.
O Web Summit Rio registrou crescimento recorde de público, startups e investidores. Mais importante do que os números, porém, foi a mensagem que ficou da coletiva de Cosgrave: o centro de gravidade da inovação está se espalhando pelo mundo.
O Vale do Silício continuará relevante por muito tempo. Mas a grande história desta década talvez seja outra.
O futuro da tecnologia terá vários sotaques.
E o Brasil parece determinado a ser um deles.




