
No Web Summit Rio, empresas apostam que a próxima revolução financeira será tornar os pagamentos globais tão rápidos quanto o Pix.
O Pix criou um problema. Depois de acostumar milhões de brasileiros a transferir dinheiro em segundos, ele tornou muito mais difícil aceitar a lentidão do resto do sistema financeiro. A revolução não foi apenas tecnológica. Foi cultural. O brasileiro desaprendeu a esperar pelo dinheiro.
Parece um detalhe, mas não é. Durante décadas, movimentar recursos significava conviver com horários bancários, compensações, tarifas e burocracias. Transferir dinheiro exigia planejamento. Era preciso esperar o próximo dia útil, conferir se a operação havia sido concluída e torcer para que não houvesse algum contratempo no caminho. Tudo isso parecia normal. Até deixar de parecer.
Hoje, fazer um Pix para qualquer lugar do país leva poucos segundos. A operação acontece a qualquer hora, em qualquer dia da semana. É tão simples que a demora passou a ser percebida não como uma característica do sistema, mas como uma falha dele. O problema é que essa experiência termina quando o dinheiro cruza a fronteira.
É justamente aí que surge uma questão interessante. Se conseguimos movimentar dinheiro instantaneamente dentro do Brasil, por que enviar recursos para outro país ainda pode levar dias? A resposta está na enorme diferença entre a infraestrutura financeira doméstica e a internacional.
O Brasil construiu, sob liderança do Banco Central, uma das arquiteturas financeiras mais modernas do mundo. Pix, Open Finance e digitalização bancária colocaram o país em uma posição que poucos imaginavam há uma década. Enquanto isso, grande parte dos pagamentos internacionais continua dependendo de estruturas criadas para uma economia muito menos conectada do que a atual.
O resultado é um contraste quase absurdo. Uma empresa brasileira consegue pagar um fornecedor em Porto Alegre em segundos, mas pode esperar dias para concluir uma transferência para Miami, Lisboa ou Xangai. Em pleno 2026, o dinheiro ainda viaja entre países em uma velocidade incompatível com a velocidade dos negócios.
Esse foi um dos temas mais interessantes que encontrei no Web Summit Rio deste ano. Em meio às discussões sobre inteligência artificial e transformação digital, uma nova geração de empresas tenta resolver justamente esse gargalo: a lentidão do dinheiro quando ele cruza fronteiras.
Entre elas está a Jeeves, fintech global focada em gestão financeira corporativa. A empresa parte de uma constatação simples. Os negócios se tornaram globais, mas a infraestrutura financeira continua funcionando, em muitos casos, como se estivéssemos em outra década. Para companhias que contratam profissionais em vários países, recebem de clientes internacionais ou mantêm operações distribuídas pelo mundo, a complexidade financeira se transformou em um dos principais obstáculos ao crescimento.
Outra empresa presente no evento é a TCR Finance. A fintech brasileira vem apostando em uma infraestrutura que combina Pix, stablecoins e rede bancária internacional para acelerar pagamentos internacionais. Segundo a empresa, mais de R$ 2 bilhões já foram movimentados por sua plataforma entre 2024 e 2025. A aposta é que a integração entre blockchain e sistema financeiro tradicional pode reduzir drasticamente o tempo necessário para transferências globais.
O ponto interessante é que ambas estão tentando resolver o mesmo problema por caminhos diferentes. Não se trata apenas de reduzir custos ou aumentar eficiência. Trata-se de atender a uma nova expectativa criada pelo próprio avanço da tecnologia. Depois do Pix, a espera passou a parecer um defeito.
É por isso que as stablecoins começam a ganhar espaço nas discussões sobre o futuro das finanças. Apesar de frequentemente serem associadas ao universo especulativo das criptomoedas, elas cumprem uma função bastante diferente. São moedas digitais lastreadas em ativos reais, como dólar ou euro, e utilizam a tecnologia blockchain para facilitar a movimentação de recursos.
O aspecto mais importante não é a tecnologia. É a experiência. A promessa é permitir que uma empresa faça um pagamento para outro continente com a mesma simplicidade com que hoje realiza uma transferência doméstica. Parece um detalhe operacional. Não é.
Toda vez que o dinheiro circula mais rápido, negócios acontecem mais rápido. Empresas reduzem capital parado, melhoram fluxo de caixa, eliminam burocracias e conseguem operar de forma mais eficiente. Quando a infraestrutura financeira evolui, a economia inteira ganha velocidade.
Mas talvez a transformação mais profunda ainda esteja por vir. O próximo estágio dessa evolução é o dinheiro programável. Em vez de apenas transferir recursos, empresas poderão automatizar pagamentos, integrar liquidações aos seus sistemas e criar processos financeiros executados quase sem intervenção humana. Com inteligência artificial, parte dessas decisões poderá acontecer automaticamente.
O dinheiro deixa de ser apenas um ativo armazenado em uma conta. Passa a funcionar como software.
Essa talvez seja a grande mudança que está começando a acontecer diante dos nossos olhos. Durante décadas, a inovação financeira esteve concentrada em aplicativos, cartões e interfaces mais amigáveis. Agora a transformação acontece nos bastidores, nos trilhos que movimentam o dinheiro.
O Brasil possui uma vantagem importante nessa corrida. Poucos países criaram uma população tão acostumada a pagamentos instantâneos quanto a nossa. O Pix não apenas modernizou transferências. Ele mudou aquilo que os brasileiros passaram a considerar aceitável.
Talvez por isso o país esteja tão bem posicionado para a próxima etapa da evolução financeira. O maior legado do Pix não foi tecnológico. Foi psicológico. Ele ensinou milhões de pessoas e empresas que dinheiro deveria circular na velocidade da internet.
Agora surgem empresas como Jeeves e TCR Finance apostando que essa lógica não ficará restrita às fronteiras brasileiras. Se estiverem certas, o futuro dos pagamentos internacionais não será apenas mais barato ou mais rápido. Será praticamente instantâneo.





