
No meio do IA Festival 2026, evento lotado de executivos tentando descobrir como transformar inteligência artificial em resultado de verdade, uma frase do CEO da StartSe resumiu talvez o maior dilema corporativo de 2026: “A IA não é uma corrida que você vence, é uma corrida que você continua correndo”.
Foi durante uma conversa que tive com Piero Franceschi no evento que ficou claro como boa parte do mercado ainda está olhando para IA da maneira errada. Enquanto executivos seguem discutindo ferramentas, prompts e hype, ele insiste em um ponto muito menos glamouroso e muito mais importante: gestão. Porque a verdade é desconfortável. A maioria das empresas ainda não sabe exatamente o que fazer com inteligência artificial.
E pior: muitas estão repetindo exatamente os mesmos erros que cometeram em ondas anteriores de transformação digital. Existe um movimento quase automático dentro das grandes empresas de transformar qualquer novidade tecnológica em um projeto lento, burocrático e caro. Só que a IA simplesmente não funciona nesse ritmo.
Piero trouxe uma provocação importante durante a entrevista. Segundo ele, a IA deixou de ser opcional.
— Assim como foi a computação há 25 anos, agora a IA virou o novo pacote Office — afirma.
A comparação parece simples, mas ela explica muito do que está acontecendo agora dentro do mercado corporativo.
Ninguém hoje coloca “saber usar Excel” no LinkedIn como diferencial estratégico. É pré-requisito. Com inteligência artificial acontecerá exatamente a mesma coisa. A discussão não será mais quem usa IA. A discussão será quem consegue trabalhar melhor usando IA.
Só que existe um detalhe curioso acontecendo dentro das empresas: os executivos entenderam que precisam entrar no jogo, mas ainda não sabem como liderar esse movimento. E isso está criando dois extremos igualmente ruins.
De um lado, empresas que proíbem tudo por medo de vazamento de dados, perda de controle ou insegurança jurídica. Do outro, organizações que viraram uma espécie de parque de diversões corporativo de IA generativa, onde todo mundo cria agentes, automações e testes aleatórios sem nenhuma conexão real com resultado de negócio.
Piero resumiu isso de forma bastante precisa durante nossa conversa:
— Nem comando e controle absurdo, nem sem comando e sem controle.
E talvez essa seja uma das melhores definições sobre o momento atual da IA dentro das empresas.
Existe hoje uma euforia quase infantil em torno da tecnologia. Muita gente descobriu que usar IA é divertido. Você abre uma ferramenta, escreve meia dúzia de prompts e a máquina devolve textos, imagens, códigos e apresentações em segundos. O problema é que diversão corporativa não necessariamente vira produtividade.
Outro ponto interessante da entrevista foi quando ele desmontou a lógica tradicional dos grandes projetos empresariais. Segundo Piero, muitas companhias ainda tentam implementar IA como implementavam ERP nos anos 2000: projetos longos, consultorias gigantescas, milhões investidos e cronogramas intermináveis.
Só que a IA muda rápido demais para esse modelo sobreviver.
— Em 18 meses, no tempo da IA, muda tudo — destaca.
Talvez esse seja justamente o choque cultural mais difícil para grandes empresas. Elas foram treinadas durante décadas para reduzir risco, controlar variáveis e evitar erro. A IA exige quase o contrário: velocidade, experimentação e humildade para aprender em movimento.
Por isso a StartSe insiste tanto em uma lógica menos tecnológica e mais pragmática. Em vez de começar escolhendo ferramentas, a recomendação é começar pelos problemas. O que custa caro hoje? O que toma tempo? O que gera retrabalho? O que trava crescimento? Só depois disso entram ferramentas, testes e automações.
Parece óbvio, mas não é o que o mercado faz. Hoje, boa parte das empresas compra tecnologia antes de entender qual problema quer resolver. E aí nasce a grande frustração corporativa da IA: projetos bonitos no PowerPoint e irrelevantes no caixa.
Talvez a fala mais simbólica da entrevista tenha sido quando perguntei de onde estão vindo os projetos de implementação. A resposta foi direta:
— IA é um assunto de CEO.
Isso muda completamente a lógica tradicional da inovação corporativa.
Durante anos, tecnologia foi empurrada para o TI. Agora, pela primeira vez, a IA afeta produtividade, marketing, RH, vendas, financeiro, atendimento e operação ao mesmo tempo. Não existe mais departamento isolado de inovação. Existe empresa preparada e empresa atrasada.
O curioso é que o próprio TI, segundo ele, muitas vezes virou apenas o terceiro ator dessa transformação. Os protagonistas agora são CEOs e áreas de negócio mais experimentadoras. É quase uma inversão histórica dentro das companhias.
Mas o trecho mais interessante da conversa talvez tenha sido justamente o menos técnico. Piero comentou que a inteligência artificial pode libertar as pessoas de tarefas repetitivas e pouco humanas. E aqui existe uma ironia enorme acontecendo no mercado de trabalho.
Durante décadas, empresas transformaram profissionais em operadores de planilha, repetidores de processo e máquinas de produtividade. Agora surge uma tecnologia capaz de fazer justamente isso melhor do que humanos. Talvez a pergunta mais importante não seja quais empregos a IA vai substituir. Talvez seja quais trabalhos nunca deveriam ter sido tão desumanos para começo de conversa.
A sensação depois da entrevista foi clara: o mercado brasileiro ainda nem começou essa transformação de verdade. Existe muito discurso, muito painel e muito post no LinkedIn. Mas implementação real ainda é rara.
A própria StartSe hoje conduz dezenas de projetos simultâneos justamente porque poucas empresas conseguiram estruturar um método minimamente consistente para implementar IA com pragmatismo.
E talvez esse seja o maior risco para os próximos anos. Não ficar para trás tecnologicamente. Mas continuar tratando inteligência artificial como moda, e não como mudança estrutural de gestão. Porque a corrida já começou. E, gostando ou não, ninguém mais pode ficar parado.




