
A escolha entre apostar na inteligência artificial e o humano está transformando a Gramado Summit 2026 em um dos eventos mais relevantes da América Latina.
Enquanto boa parte do mercado ainda tenta entender o impacto da inteligência artificial, a Gramado Summit faz o movimento oposto. Em vez de dobrar a aposta na tecnologia, decide recentrar o debate nas pessoas. A Gramado Summit 2026 chega à sua 9ª edição com números que deixam pouca margem para dúvida: são cerca de 23 mil participantes esperados, mais de 500 empresas e mais de 350 palestrantes . Não é mais um evento em ascensão. É um evento consolidado. Mas o ponto mais interessante não está no tamanho. Está na escolha estratégica.
O tema deste ano, “Make It Human”, não é decorativo. É quase um posicionamento de mercado. Em um momento em que empresas correm para automatizar tudo o que podem, o evento levanta uma pergunta desconfortável: e se a vantagem competitiva estiver justamente no que não pode ser automatizado? Criatividade, empatia e imperfeição, durante anos tratados como acessórios, começam a voltar como ativos centrais.
Existe uma tentação de explicar o sucesso da Gramado Summit pelos nomes que sobem ao palco. E eles ajudam, claro. Há diversidade de perfis, da executiva Luiza Helena Trajano a nomes da cultura pop, passando por histórias de sobrevivência extrema e atores de séries globais como Peaky Blinders. Mas isso é superfície. O que sustenta o evento são dois pilares que raramente aparecem juntos com consistência.
O primeiro é a hospitalidade. Gramado não trata o visitante como público. Trata como convidado. Parece detalhe, mas não é. A experiência começa antes do credenciamento e continua fora dos palcos. A cidade funciona como extensão do evento. Isso não é logística. É posicionamento. Em um mundo saturado de eventos, a experiência virou diferencial competitivo.
O segundo pilar é o conteúdo. Aqui entra um ponto que o CEO Marcus Rossi repete há anos: não basta volume, é preciso curadoria. Com mais de 350 palestrantes, o risco seria virar ruído. Mas o evento organiza essa massa em trilhas que misturam negócios, comportamento e cultura. O resultado é raro: densidade sem ser hermético.
Trazer um sobrevivente do desastre dos Andes ou um ator internacional não é só sobre chamar atenção. É sobre narrativa. Eventos que crescem são aqueles que entendem que conteúdo não é apenas informação. É conexão emocional. E isso, ironicamente, é algo que a inteligência artificial ainda não entrega com consistência.
Existe um paradoxo interessante acontecendo. Quanto mais tecnologia disponível, mais valioso se torna o elemento humano. Quanto mais automação, maior a demanda por autenticidade. E é exatamente esse espaço que a Gramado Summit ocupa. Não porque ignora a tecnologia, mas porque entende que ela, sozinha, não resolve o problema mais difícil: fazer sentido.
Vale o contraponto. O Brasil não sofre de falta de eventos de inovação. Sofre de excesso deles. A maioria desaparece porque entrega mais do mesmo: palestras genéricas, networking superficial e pouca curadoria. A Gramado Summit faz o oposto. Constrói consistência ao longo do tempo. Nove edições depois, isso começa a cobrar dividendos.
Se existe uma leitura mais ampla aqui, ela é simples. Tecnologia virou commodity. Experiência, não. Conteúdo de verdade, menos ainda. E, principalmente, gente continua sendo o ativo mais difícil de replicar. Enquanto parte do mercado tenta substituir o humano, Gramado aposta nele. Não parece uma escolha óbvia. Mas talvez seja justamente por isso que esteja funcionando.




