
Eu nunca vi tanta gente cansada de correr atrás de novidades como agora. E, ao mesmo tempo, nunca vi tanta gente correndo.
Abro o LinkedIn e parece arquibancada de final de campeonato. É comparação de modelo de IA, ranking de ferramentas de vídeo, debate sobre qual versão escrever melhor código, qual faz imagem mais realista, qual automatiza tudo. A sensação é que, se você não testar a atualização da semana, já ficou para trás.
A gente entrou num eterno campeonato de novidades.
E campeonato tem regra clara: alguém sempre está ganhando e alguém sempre está perdendo. O problema é que, no mercado, quase ninguém para para perguntar se essa corrida está levando para algum lugar relevante.
Não é impressão. O ritmo acelerou de verdade. Segundo a consultoria McKinsey, 79% das empresas já tiveram algum tipo de exposição à inteligência artificial generativa. Mais da metade disse que já usa a tecnologia em pelo menos uma área do negócio. Só que, quando a mesma pesquisa pergunta sobre impacto direto no lucro, o número cai drasticamente. A maioria ainda não consegue medir o resultado financeiro claro.
Ou seja, muita adoção. Pouca transformação real.
E aqui está o ponto que me incomoda.
A conversa virou ferramenta. Deixou de ser problema.
Em vez de discutir gargalo, custo, margem, conversão, ciclo de venda, produtividade real, a gente discute versão. É quase como se atualizar fosse sinônimo de evoluir. Não é.
Tem um estudo da Stanford University com o MIT que mostrou que o uso de IA generativa pode aumentar a produtividade em tarefas específicas em até 14% em média, chegando a números maiores para profissionais menos experientes. Isso é relevante. Mas produtividade não é sinônimo automático de vantagem competitiva. Se todo mundo ganha eficiência ao mesmo tempo, o diferencial desaparece rápido. O que fica é estratégia.
A indústria de tecnologia entendeu algo há muito tempo: a novidade gera atenção. Atenção gera narrativa. Narrativa sustenta valor de mercado. Empresas como OpenAI e Anthropic surfaram uma onda gigantesca de valorização impulsionada pela promessa da IA. E não estou dizendo que não exista substância. Existe. Mas existe também um incentivo estrutural para manter o ciclo de anúncio constante. Atualizações sucessivas, recursos incrementais embalados como revolução.
Enquanto isso, do lado de cá, profissionais sentem que precisam dominar tudo. E rápido.
Eu já participei de reuniões em que a pergunta era: “Como podemos usar IA aqui?”. Quase nunca alguém começa com: “Qual é o nosso problema mais caro hoje?”. Parece detalhe, mas muda tudo. Quando a ferramenta vem antes do diagnóstico, a chance de virar brinquedo caro é enorme.
Eu não sou contra novidades. Muito pelo contrário. Estamos vivendo talvez o maior salto tecnológico das últimas décadas. O acesso é democrático, a curva de aprendizado é rápida e o potencial é enorme. Mas potencial não paga salário. Resultado paga.
Talvez a habilidade mais valiosa agora não seja saber qual modelo é melhor. Ou seja, saber dizer “isso não é prioridade”. Seja conseguir olhar para dentro da operação e identificar onde realmente dói. Onde perde dinheiro. Onde o retrabalho consome energia. Onde o cliente abandona o carrinho.
Se a IA resolver isso, excelente. Se não resolver, é uma distração sofisticada.
No fim do dia, não é sobre ganhar o campeonato de novidades. É sobre construir vantagem que dure mais do que a próxima versão.
E essa vantagem não nasce do wow.
Nasce da clareza.




