
Quando a Volkswagen “ressuscitou” Elis Regina em um comercial da Kombi, há pouco mais de dois anos, o país dividiu opiniões. Para uns, foi uma homenagem emocionante; para outros, uma fronteira ética rompida sem consentimento da artista.
O debate esfriou, mas a tecnologia não. Voltou com força agora, pois viralizou um aplicativo que permite a usuários “reviverem” parentes mortos por meio de vídeos curtos e inteligência artificial. Basta subir imagens de quem já se foi, e o sistema se encarrega de criar um avatar que fala, pisca, se mexe e manda mensagens como se fosse a pessoa real. A pergunta é inevitável: você faria isso?
O 2Wai é um aplicativo que cria o que a empresa chama de HoloAvatars, avatares digitais que vão muito além de recriar pessoas que já morreram. A tecnologia permite gerar versões digitais de personagens diversos, mas está sendo amplamente usada no mundo para reviver avós que já morreram para acompanharem, por exemplo, o crescimento dos netos pelo celular.
Mas o atrativo emocional é evidente. Quem já perdeu alguém sabe que a saudade não é conceito abstrato; é um buraco físico no peito. A ideia de ouvir novamente a voz de uma mãe, ver o sorriso de um filho ou “conversar” com um avô desaparecido mexe com o que temos de mais vulnerável.Não é à toa que a chamada grief tech cresce no mundo todo.
O aplicativo do momento não inventou a roda: já existiam chatbots que aprendiam conversas de pessoas por meio de mensagens de WhatsApp, ferramentas que reconstruíram vozes e até hologramas usados em cerimônias memoriais. Mas esta versão é mais acessível, mais verossímil e, sobretudo, mais viralizável. A promessa é sedutora: transformar a saudade em presença, ainda que artificial.
O problema é que não se trata de memória, como seria ver uma foto antiga ou ler uma carta guardada. Trata-se de simulação.
O avatar não pensa como a pessoa que morreu, não tem sua ética, seu repertório, suas manias. Ele combina dados, padrões e estatísticas. É um espelho torto: lembra o rosto, mas distorce a alma. E isso importa.
Psicólogos do luto alertam que a aceitação da ausência é parte do processo de cura. Manter uma presença sintética pode criar dependência emocional ou até adiar indefinidamente a elaboração da perda. A tecnologia promete conforto, mas pode entregar anestesia — e, como toda anestesia prolongada, tem efeitos colaterais.
E a autorização?
Existe também um ponto ético que passou batido no entusiasmo das redes: quem deu permissão para que aquela pessoa fosse recriada?
No caso de celebridades, discute-se herança de imagem. No caso de pessoas comuns, discute-se quase nada — e deveríamos.
Se alguém morre sem deixar instruções, a quem pertence sua face digital? Aos filhos? Ao cônjuge? À empresa dona do aplicativo?
Hoje, não há regra. Estamos entregando nossos mortos a termos de uso que ninguém lê. E se, daqui a alguns anos, esses avatares forem usados para publicidade, campanhas políticas, serviços de atendimento ou outros propósitos tão improváveis quanto lucrativos? A fronteira entre homenagem e exploração é perigosamente fina.
Parte do fascínio dessa tecnologia vem de uma recusa moderna à finitude. Queremos tudo sob demanda: filmes, comida, relacionamentos. Agora, luto sob demanda.
Só que a morte continua sendo o único fato inegociável da vida.
Fingir que ela não aconteceu pode até trazer alívio imediato, mas compromete algo profundo: nossa capacidade de seguir adiante.
Não sou adepto do tecnopessimismo. Tecnologia pode ajudar a preservar histórias familiares, organizar arquivos, registrar vozes que se perderiam. Pode ser instrumento de memória sem precisar se passar por presença. O problema não é lembrar: é reviver.
Qual a saída?
Usar? Proibir? Regular? Talvez a saída esteja em um meio-termo menos sedutor, porém mais honesto: permitir ferramentas que celebrem a memória, mas exigir consentimento claro, limites de uso, aviso explícito de simulação e regras rígidas para armazenamento dos dados.
A dignidade não termina com a morte — e a saudade não precisa virar produto para continuar sendo saudade. No fim, a pergunta continua em cima da mesa: você reviveria um parente perdido? Eu, confesso que ainda não tenho uma resposta.






