
O Web Summit 2025 abriu em clima de virada. Depois de anos de hype e promessas, a sensação na noite de estreia foi de que o ciclo da inteligência artificial já não é mais sobre o que pode ser feito — é sobre quem já está fazendo. E, sobretudo, sobre o fato de que criar, testar e começar ficou barato.
Diante de mais de 70 mil pessoas no MEO Arena, Anton Osika, sueco de 23 anos que fundou a Lovable, uma plataforma que promete transformar qualquer pessoa em desenvolvedora — sem que ela precise escrever uma linha de código, foi um dos painéis mais esperados.
Com visual de estudante e a confiança típica do Vale do Silício, Osika mostrou um dado que explica o momento: mais de 8 milhões de usuários já criaram produtos na plataforma, e ela hoje gera mil novos apps por dia. O público inclui empresas da Fortune 500, mas também curiosos de todas as idades testando ideias no fim de semana.
O caso que Osika escolheu para ilustrar virou símbolo da noite: uma executiva sem formação técnica em programação conseguiu prototipar um aplicativo funcional em três horas — o mesmo projeto teria levado quatro meses e uma equipe inteira antes da era das IAs generativas.
— Nosso objetivo é tornar o software algo que as pessoas amem construir, não temam — disse o CEO, antes de exibir uma sequência de exemplos de apps feitos com Lovable em design automático, finanças pessoais e até saúde mental.
E aqui ele trás um ponto de virada importante e um caminho que muitas empresas de IA vão seguir, empoderar pessoas comuns a criar aplicativos, sites, software, app ou o que elas quiserem, apenas “pedindo” para IA e que isso vire um hobby ou como ele mesmo disse, um amor.
A mensagem encaixou-se perfeitamente na ambição maior do Web Summit este ano: mostrar que a barreira entre a ideia e o produto está ruindo.
O que antes exigia saber programar agora se resolve com prompts em linguagem natural e ajustes visuais. No palco, Osika destacou que o papel da IA não é substituir o programador, mas colocar a tecnologia nas mãos de quem tem o problema, não apenas de quem sabe codar a solução.
É o mesmo movimento que o design viveu quando ferramentas como o Canva democratizaram a criação visual. Agora, é o próprio software que entra nessa lógica de “faça você mesmo”.
Segundo o fundador, essa popularização está gerando um novo tipo de profissional: o builder amador, gente que nunca estudou ciência da computação mas domina a interação com agentes inteligentes e cria produtos de nicho, de apps para freelancers a jogos educativos.
O recado é tão econômico quanto tecnológico: o custo de começar caiu drasticamente. Para um país ou cidade, isso redefine o que significa ter um ecossistema de inovação. Não é mais sobre rodadas milionárias ou incubadoras cheias, mas sobre ter massa crítica de criadores testando ideias em tempo real.
Lisboa, que busca seu 17º unicórnio, entendeu o espírito. O prefeito Carlos Moedas resumiu a ambição ao dizer que “esta é a cidade onde a justiça social encontra a inovação” — um argumento de que a inclusão digital agora passa também por dar acesso às ferramentas que produzem tecnologia, não apenas ao seu consumo.
A fala de Osika abriu a sequência de nomes estrelados como Maria Sharapova e Khaby Lame, que falaram sobre IA no esporte e no mercado de criadores. Mas o sueco deixou o mote mais claro da noite: a nova revolução tecnológica é silenciosa, barata e acessível.
O Web Summit 2025 começou com o aviso: o futuro não pertence a quem tem mais capital de risco, mas a quem se atreve a apertar “criar projeto”, pedir e dizer para IA o que quer e ver o que acontece.





