
A Apple deve fechar 2025 como a maior vendedora de smartphones do planeta, algo que não acontecia havia 14 anos. Para quem acompanha esse mercado, não é só uma troca de posições no pódio global. É uma mudança de direção, daquelas que obrigam concorrentes a reverem prioridades e governos a reavaliarem políticas para um setor que emprega milhares de pessoas, inclusive no Brasil. Não foi um golpe de sorte, nem uma jogada de marketing bem executada. A previsão da consultoria Counterpoint Research indica cerca de 243 milhões de iPhones despachados neste ano, contra 235 milhões da Samsung. Os números são de embarques e não de vendas finais ao consumidor, mas o recado é suficientemente claro: a Apple virou o jogo.
A versão simplificada da história diria que o iPhone 17 foi um sucesso de vendas e ponto final. Mas o fenômeno é mais profundo. O novo modelo teria registrado desempenho excepcional nas primeiras semanas pós-lançamento, especialmente em mercados como China e Estados Unidos. Só que esse efeito não nasce do aparelho em si, e sim da estratégia de longo prazo. A Apple construiu um ecossistema que funciona como um imposto emocional. Quem entra dificilmente sai. E quem sai volta. Enquanto isso, a Samsung parece ter perdido seu elemento de encantamento. A empresa continua lançando celulares competentes, mas nenhum deles virou objeto de desejo universal. A multiplicidade de modelos, em vez de mostrar força, dilui identidade. Ser líder de volume nunca garantiu liderança simbólica e 2025 parece ser o ano em que essa diferença finalmente pesou.
Outro componente dessa virada é mais prosaico, mas decisivo: o ciclo de troca. Durante a pandemia, milhões de consumidores compraram celulares novos. Esses aparelhos agora dão sinais de fadiga. E quem adia por muito tempo a substituição tende a migrar para um produto percebido como mais durável e confiável. A Apple soube capturar esse momento de forma quase cirúrgica. O curioso é que essa lógica funciona também no Brasil. Aqui, mesmo com preços proibitivos e carga tributária sufocante, o iPhone reina em desejo e status. O consumidor brasileiro compra Apple para terceirizar a ansiedade por durabilidade e se inserir em um universo onde tudo funciona junto. A Samsung tenta disputar essa camada psicológica, mas raramente consegue.
O que realmente se destaca é a “premiumização silenciosa” do mercado global. Em vez de comprar dois ou três celulares medianos ao longo de cinco anos, muita gente prefere adquirir um aparelho caro e mantê-lo por mais tempo. O luxo deixou de ser nicho e virou padrão aspiracional. Isso tem consequências diretas para países como o Brasil. Se o mercado premium cresce e o de entrada encolhe, marcas populares enfrentam dificuldades e toda a cadeia produtiva sente o impacto. Não se trata apenas de Apple versus Samsung. O que muda é a estrutura de consumo de tecnologia e, por tabela, a dinâmica da indústria.
Mesmo assim, cabe uma nota de prudência. Os dados que colocam a Apple novamente no topo são de embarques, não de vendas finais. Outras consultorias trabalham com metodologias diferentes, o que pode alterar o ranking. Ainda assim, mesmo com a margem de incerteza que acompanha qualquer pesquisa de mercado, o movimento geral aponta para a mesma direção. A liderança da Apple não parece um acidente estatístico, mas o reflexo de uma mudança mais ampla no comportamento de consumo global. O público cansou da guerra do “mil recursos por mil reais” e passou a valorizar ecossistema, confiabilidade e longevidade.
O resultado é uma vantagem incômoda para as concorrentes. A Apple chega ao final de 2025 não apenas com números impressionantes, mas com uma narrativa de domínio renovado. Se a Samsung não reencontrar rapidamente uma identidade que gere desejo real, não apenas especificações, 2026 corre o risco de repetir o mesmo enredo com ainda menos suspense. O mercado já deu sua opinião. Falta às marcas rivais entenderem o que fazer com ela.


