
A inteligência artificial (IA) já faz parte do dia a dia de empresas brasileiras: 86% dos profissionais afirmam utilizar IA em suas atividades e 71% relatam ganhos em eficiência, qualidade e inovação. Apesar disso, a confiança na tecnologia continua sendo um ponto crítico e este dilema se intensifica quando a ética entra em cena.
Um dado alarmante da pesquisa da KPMG revela que 51% dos respondentes admitiram ter apresentado conteúdo gerado por IA como se fosse de sua própria autoria. Essa prática expõe um terreno perigoso: a quem pertence esse conteúdo? Onde está a linha entre autoria autêntica e terceirização invisível? Em contextos onde resultados importam mais do que origens, esse desvio ético pode corroer a integridade do processo criativo e da comunicação corporativa.
Outros dados da mesma pesquisa reforçam o cenário de alerta: 49% confessam já terem cometido erros por confiar cegamente em IA e 44% reconhecem ter usado a tecnologia de forma inadequada. Ou seja, o uso despreparado da IA não é apenas moralmente questionável; ele aumenta riscos operacionais reais.
Vale destacar que, mesmo diante dessas fragilidades, as empresas têm buscado agir para minimizar danos: 67% oferecem treinamento sobre uso responsável da IA e 68% já dispõem de políticas claras para orientar colaboradores, embora mais de 30% operem sem governança estruturada.
Esse cenário reflete uma dualidade: por um lado, a IA avança e se densifica como ferramenta decisiva. Um quarto dos trabalhadores não conseguiria realizar suas tarefas sem o apoio da tecnologia e muitos temem ficar obsoletos sem adotá-la. Por outro, essa adoção rápida muitas vezes ultrapassa a capacidade de regulação, supervisão e formação.
No Brasil, avançamos: estamos à frente de países como Alemanha, Japão, França, Reino Unido e Estados Unidos em familiaridade com ferramentas de IA, com 47% de conhecimento e uso contra patamares entre 20% e 28%. Mas a capacidade de capturar os benefícios não pode vir em detrimento da responsabilidade.
Sem um arcabouço ético robusto e cultura estabelecida, muitos acabam sucumbindo às pressões por resultados rápidos, assumindo autoria de resultados que não criaram. Um recurso que, apesar de invisível, pode custar muito à reputação, à transparência e à credibilidade organizacional.
Ainda que a regulação brasileira sobre IA esteja em construção, como no PL 2.338/2023, e embora existam políticas internas em ascensão, o uso consciente e ético da IA nas empresas exige mais do que diretrizes: exige cultura.





