
Semana passada, fui almoçar com um amigo advogado. Entre garfadas e risadas, ele me lançou uma pergunta com cara de provocação, mas tom de preocupação:
— Tu achas mesmo que a inteligência artificial pode substituir o trabalho de um advogado?
A mesa estava leve, mas o assunto, nem tanto. Aquela dúvida não era só dele. É de muita gente que está vendo a IA invadir áreas que, até pouco tempo, pareciam imunes. O Direito sempre foi considerado uma profissão sólida, técnica e, acima de tudo, humana. Mas a tecnologia está começando a mudar esse equilíbrio.
Contei pra ele que o uso de IA no setor jurídico já é realidade. Grandes escritórios nos Estados Unidos, como o Allen & Overy, estão usando uma IA chamada Harvey, treinada com linguagem jurídica, para gerar minutas, revisar documentos e apoiar decisões. A PwC adotou a mesma ferramenta para suas operações jurídicas em mais de 100 países.
Aqui no Brasil, a movimentação também começou. Plataformas como Linte, Turivius e Juridoc usam IA para agilizar análises de contratos, organizar documentos e até prever o desfecho de ações com base em decisões anteriores. O Tribunal de Justiça de São Paulo já usa IA para identificar processos repetitivos. O STF tem o Victor, uma IA que ajuda a selecionar ações com repercussão geral.
A essa altura do almoço, ele largou o talher por um segundo e disse:
— Tá, mas isso tudo é máquina. O que a gente faz tem sensibilidade, interpretação. A IA não entende o que está nas entrelinhas.
E ele tem razão.
A IA pode sugerir argumentos, organizar jurisprudência, até redigir peças simples. Mas ela não entende o nervosismo de um cliente diante do tribunal. Não percebe a hesitação no depoimento de uma testemunha. Não avalia o impacto social de uma decisão judicial.
Só que tem um ponto que também é verdade: a IA faz mais rápido. Em muitos casos, com mais precisão. E isso muda tudo.
Segundo um estudo da Goldman Sachs, até 44% das tarefas no setor jurídico podem ser automatizadas com IA generativa. Não quer dizer que metade dos advogados vai perder o emprego, mas que o modelo de trabalho vai mudar. A rotina, o tempo gasto em cada etapa e o valor percebido pelo cliente serão outros.
O advogado que hoje passa horas buscando jurisprudência vai disputar espaço com quem resolve isso em minutos usando IA. E o diferencial vai estar em quem consegue fazer o que a IA ainda não faz: pensar estrategicamente, construir argumentos com nuances e lidar com o ser humano que existe por trás de cada processo.
Contei tudo isso pra ele. E completei com uma frase que uso com frequência:
— A IA não vai acabar com as profissões. Vai acabar com as tarefas.
Ele ficou um tempo quieto. Depois riu e disse que ia marcar uma reunião com o sócio do escritório para conversar sobre o tema. Disse que o medo virou curiosidade. E que talvez fosse hora de estudar IA com o mesmo empenho com que estudou o Código Civil.
Saí daquele almoço animado. Não porque convenci alguém. Mas porque percebi que tem muita gente boa disposta a escutar, pensar e se atualizar. E isso, no fim das contas, é o que vai fazer a diferença.
A IA não vai substituir o Direito. Mas vai obrigar o Direito a se reinventar.
E quanto antes essa conversa chegar aos escritórios, melhor. De preferência, antes da sobremesa.

