
O sujeito podia fazer a mesma canalhice com 10 mulheres e, ainda assim, contar com uma proteção formidável: nenhuma delas sabia das outras nove. Cada uma carregava apenas o próprio episódio. E, muitas vezes, era um episódio difícil de provar – talvez pequeno demais para mobilizar uma investigação formal. Ou seja: para ele, uma rotina. Para elas, 10 histórias isoladas.
Só que aí inventaram um negócio chamado rede social. E a antiga vantagem do assediador agora começa a desmoronar.
Na semana que passou, você deve ter visto, uma jovem relatou no Instagram ter sido perseguida e importunada no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. O vídeo viralizou, fotos do homem vieram a público, outras mulheres o reconheceram e a Polícia Civil passou a investigar. Dias antes, o tatuador Vinícius Roig havia sido preso, em Balneário Camboriú, após a irmã criar uma página no Instagram reunindo denúncias contra ele: dezenas de mulheres diziam ter sofrido violência doméstica e sexual. A suspeita é de que Vinícius praticava os abusos havia três décadas.
Que as redes sociais deram voz às vítimas, isso é óbvio. Mas há uma revolução ainda mais profunda: a internet acabou com o isolamento da informação. E é justamente aí, na conexão entre relatos dispersos, que costuma aparecer o famoso "padrão" – o modus operandi que permite à polícia identificar um predador em série. Aliás, dois desafios históricos da segurança pública são exatamente esses: a fragmentação de dados e a dificuldade de integração entre os sistemas.
Claro, um post no Instagram não prova um crime. Mas retira um episódio individual daquela solidão cruel que tornava a história desimportante. Isso desarruma muita coisa. Desarruma a certeza do abusador, que acreditava que cada vítima permaneceria confinada à própria memória. Desarruma instituições acostumadas a receber denúncias como peças avulsas. E desarruma inclusive o devido processo – porque a exposição pública dos relatos produz uma convicção social muito antes de a investigação alcançar suas conclusões.
Ao Estado, convém baixar a crista. Em vez de reclamar do "tribunal das redes", precisa perguntar o que pode aprender com ele: cruzar ocorrências, detectar repetições, conectar casos, procurar ativamente outras vítimas. Porque há algo profundamente humilhante para o poder público quando um algoritmo consegue revelar uma possível sequência que anos de registros formais não identificaram.
Ao mesmo tempo, seria bom se as redes resistissem à tentação de substituir investigação por veredito instantâneo. Mobilização pública serve para obrigar o Estado a olhar; não para decidir o que ele deve enxergar. Ainda que, às vezes, a miopia pareça constrangedora.




