
Não vou fingir uma elevação moral que não tenho – e que talvez nem seja saudável ter. Um homem que mata o filho de três anos desferindo socos num torso de 30 centímetros, martelando a cabecinha frágil contra o chão da própria casa, e tudo porque o menino não lhe deu bom-dia, sinceramente, não vejo lugar no mundo para alguém assim.
Não digo isso com orgulho; digo com tristeza, inclusive. Acho ruim sentir essa fúria – me pesa no peito e, mais do que isso, bagunça minhas certezas. Pena de morte, por exemplo: sou contra, mas abro uma exceção neste caso? Até onde vai a minha coerência? Faz sentido rechaçar a pena de morte enquanto, simultaneamente, agora, neste instante, minha vontade é varrer do mapa a existência daquele homem?
Na verdade, faz.
Porque o Estado não existe para fazer o que eu faria. Pelo contrário, ele existe para segurar o meu braço. É o contrato que assinamos para viver em sociedade: a gente entrega os porretes a um terceiro que, em tese, não tem fígado nem estômago – o que ele tem é o Código Penal e um par de algemas. O bom e velho Estado. Nós o inventamos justamente por isso, porque sabíamos que, se o nosso fígado ditasse as regras, iríamos nos devorar vivos no meio da rua.
Aí vem a contradição que me rasga ao meio: quero a aniquilação do sujeito, mas não aceito que o Estado puxe o gatilho. E não aceito por uma questão de espelho. O que nos choca nessa história de Viamão é a covardia, certo? É a assimetria de um brutamontes empregando força máxima para moer uma criaturinha que mal começava a falar. Se o Estado pega esse homem, amarra numa maca e lhe injeta um veneno letal na veia, o que ele está fazendo?
Está reproduzindo a mesma dinâmica.
É o mais forte esmagando quem não pode reagir. É a máquina pública validando a lógica do assassino – a de que eliminar o outro é um método aceitável de resolver as coisas. Não é. Não pode ser. E não consigo conceber que o Estado, responsável por julgar o que é errado, pratique uma conduta que ele próprio considera errada.
Quer dizer: não quero poupar o pescoço de um facínora por piedade. Que se dane a piedade – esse tipo de gente não tem nenhuma. Eu quero é poupar o Estado de virar a imagem e semelhança do monstro. Manter vivo aquele pai assassino, apodrecendo em uma cela cinza, não é um ato de bondade. É o castigo da razão. É dizer: "Você agiu como um bicho, mas nós somos humanos e a sua barbárie não vai ditar nossas regras".
O teste definitivo de uma sociedade me parece esse: o de punir a selvageria sem começar a se parecer com os culpados.


