
Algumas pessoas atravessam a vida ouvindo que o mérito abre portas. O árbitro Omar Artan, da Somália, descobriu que algumas portas, primeiro, perguntam onde você nasceu.
Enxotado dos Estados Unidos por suposto envolvimento com terrorismo, Artan foi recebido como herói no retorno para casa. A multidão que o aplaudia, tremulando bandeiras e erguendo cartazes, enxergava no árbitro a prova viva de que, naquele país, um cidadão pode alcançar o topo do sucesso na carreira e, mesmo assim, ainda ser tratado como marginal.
Afinal, ninguém seria mais qualificado para escapar dos estereótipos do que ele. Não se tratava de um turista, nem de alguém tentando a vida na América. Artan chegou ao país-sede da Copa do Mundo como o melhor árbitro do continente africano. Um profissional de elite. E o mandaram dar meia-volta.
Por quê? Porque ele era mesmo um terrorista? Talvez até fosse, não há como saber. Mas o que transformou o juiz em símbolo para os somalis não foi sua inocência. Não foi sua ficha limpa. Foi o fato de eles serem tratados como suspeitos por definição.
Em dezembro passado, ao justificar restrições contra os cidadãos da Somália, Donald Trump disse que o país africano fede. Que aquele povo não faz nada além de reclamar. Que são pessoas que vieram do inferno. E que deveriam voltar para casa e resolver seus problemas lá.
Não são opiniões sobre imigração. É preciso ser muito obtuso para entender que, nessas declarações, existe qualquer resquício de debate sobre políticas de deportação, exigência de visto ou endurecimento de regras. O que existe é o rebaixamento de um povo a uma categoria inferior. Nada além disso.
E não custa lembrar que a Somália não escolheu ser a Somália. Boa parte da sua desgraça é resultado de séculos de colonialismo, exploração econômica, disputas geopolíticas e interferências de grandes potências – inclusive (e especialmente, nos últimos 40 anos) dos Estados Unidos. Fácil olhar para um país em dificuldade e dizer "resolvam seus problemas" quando parte desses problemas você mesmo ajudou a criar.
Mesmo assim, o árbitro Omar Artan não respondeu com ressentimento. Ao desembarcar em sua terra, agradeceu à Fifa, pediu aos compatriotas que não percam a esperança e reafirmou seu orgulho pelo país. Se o líder mais poderoso do mundo se porta como um arruaceiro, o homem do país que "fede" escolhe responder como um estadista.

