
Dizem que o sistema, essa mistura oleosa de poder, dinheiro e prestígio, destrói qualquer rebelde. Não é verdade – daria trabalho demais. O sistema aprendeu um método mais elegante: ele convida o rebelde para jantar. E Brasília, você sabe, tem um cardápio irresistível.
O sujeito atravessa anos urrando contra as elites, contra os banqueiros, os conchavos, a velha política, sempre espumando indignação, o dedo em riste, a voz de Datena. Quase um profeta bíblico ao telefone com a operadora. Até que um banqueiro liga. Em duas semanas, o rebeldinho já reclama da temperatura do carpaccio.
Não se trata de puro cinismo, mas de fetiche, de erotismo. O poder não apenas corrompe – o poder seduz. E seduz de um modo muito específico: oferecendo a deliciosa sensação de que o plebeu deixou de ser plateia. Ele agora participa, interfere, influencia. Já não observa mais o banquete atrás do vidro – ele agora circula entre os donos da festa, e isso produz uma violenta intoxicação narcísica. Porque poucas drogas são mais perigosas do que a sensação de relevância.
Situações outrora indecentes começam a soar naturais. O segurança facilita a entrada, a assessora o conduz pelo braço, o ministro manda áudio, o senador pede conselho, o empresário responde com emoji alegre, e o banqueiro, claro, o banqueiro convida para jantar. O banqueiro, aliás, olha para o político como um técnico da base olha para um guri de 13 anos:
— Esse aí tem futuro.
E como é afrodisíaco alguém poderoso enxergar você como escolhido. É assim que muito tubarão de palanque vira peixinho de aquário no andar de cima. Provavelmente porque nunca odiou o sistema de verdade. Talvez odiasse apenas estar fora dele. E vamos combinar que a carapuça serve para quase todos. Para o revolucionário de esquerda que vira amigo de empreiteiro. Para o liberal de sapatênis que adora uma mesada estatal. Para o conservador moralista que paga bacanal com propina.
A verdade é que o sistema entendeu uma coisa brilhante sobre a alma humana: quase ninguém quer destruir o castelo – o que as pessoas querem é um quarto dentro dele. Com varanda e frigobar.





