
O viaduto da Borges ficou pronto. Deve ser a terceira ou quarta grande reforma que ele recebe em 30 anos – a diferença é que agora, pela primeira vez, parecem ter entendido para que ele serve. E essa é a grande notícia.
Porque aquele viaduto acerta onde quase toda cidade erra: ele coloca o pedestre no centro da cena. Não como tolerado, não como figurante, mas como protagonista. É uma inversão radical, porque a regra desse tipo de estrutura é outra – o carro manda, o resto que se vire. Ali, não. Ali o espaço foi desenhado para quem caminha.
E isso aparece até na forma como o sol entra pelos vãos. Na sombra acolhedora sob as galerias. Nas escadarias feitas para ficar, não só para passar. Até na iluminação noturna – aquela luz suave que se derrama sem pressa, deixando claro que ninguém vai ser enxotado dali. Um viaduto que não serve para simplesmente atravessar: serve para habitar.
E, durante décadas, ele ficou meio desperdiçado. Funcionava só no horário comercial, sempre submetido a uma lógica rodoviarista: pontos de ônibus, ao longo de toda a extensão, encobriam vitrines, despejavam fumaça e empobreciam a experiência. Uma injustiça com a vocação do lugar – o viaduto era para ser usufruído pelo pedestre, não para ser utilitário.
Agora, há uma tentativa séria de corrigir isso.
Os ônibus foram embora, e as 29 lojas sob as arcadas vão ganhar outro perfil. Nada de manter ali um corredor genérico de consumo rápido: a proposta é livraria, café, bar, disco, ateliê. Um uso que conversa com o espaço, que respeita o ritmo do lugar, que entende que ali não cabe toda essa pressa. E tudo vai funcionar até as 10 da noite, uma revolução que desafia um hábito antigo de Porto Alegre: o de abandonar o Centro quando o expediente acaba.
Se vai dar certo? Não sei, não é fácil. E quem assumiu o projeto sabe disso. Não é gente que caiu ali de paraquedas: o consórcio que venceu a licitação reúne os donos do Justo e do Café Mal Assombrado, bares que já são referência no Centro Histórico – os dois, aliás, entraram na disputa para evitar que o viaduto virasse qualquer coisa sem identidade.
O fato é que algo importante está ocorrendo: pela primeira vez em muito tempo, o viaduto da Borges é tratado à altura do que sempre foi: um dos espaços mais bem pensados de Porto Alegre.



