
Tudo indicava um dia de movimento – Sexta-Feira Santa, início de feriadão –, mas acharam melhor não abrir. O plano era começar uma reforma para renovar o restaurante. Àquela hora, pelas 10h40min, normalmente teria gente ajeitando as mesas, abrindo o caixa, organizando a cozinha. Em vez disso, havia silêncio. E foi nesse silêncio que o avião caiu, matando as quatro pessoas a bordo – e destruindo um prédio que, naquela manhã, não tinha ninguém.
Do ponto de vista racional, reviravoltas assim têm explicação matemática. Imprevistos, pequenos atrasos e decisões banais certamente alteram, todos os dias, circunstâncias das quais nem lembramos depois. Um semáforo vermelho que faz você chegar um minuto mais tarde, por exemplo, pode garantir o encontro com um colega que vai sugerir o restaurante do almoço. A troca de caminho por uma rua mais vazia talvez termine em uma feira que entrará na sua rotina.
Mas, quando o entrelaçar de coincidências preserva vidas, chamar isso de acaso parece meio frio. Não pode um desfecho tão extraordinário brotar de um enredo tão ordinário. Há quem diga, portanto, que "foi Deus" quem salvou a equipe do restaurante – uma possibilidade que merece ser considerada. Afinal, se uma pessoa realmente sente a presença de Deus, quem sou eu para contestá-la? Talvez Ele exista, sim, justamente porque há quem o sinta.
Minha dúvida é por que Deus salvaria alguns e não outros. Morreram quatro naquela manhã em Capão. O que torna uma pessoa tão especial a ponto de merecer uma intervenção divina negada a tantos? A resposta mais frequente costuma ser:
— Não era a hora dela.
Aí entramos em uma terceira suposição. Além da mão de Deus e das coincidências da vida, outra hipótese seria a vontade do destino – esse conceito nebuloso que transforma o imprevisível em obrigatório. Se foi isso, significa que todos estamos presos a uma trama inevitável, em que cada instante, cada atraso ou desvio, desempenha um papel em um roteiro previamente escrito.
Entre as três possibilidades, essa última é a que menos me agrada. Encarar cada escolha da vida como ilusão seria aceitar que a liberdade é uma farsa – o que faria da própria vida uma enorme mentira. Para mim, é o contrário: o mais importante talvez seja lembrar que, por acaso, por Deus ou pelo destino, ainda estamos aqui. E é nas decisões que tomamos agora que reside a chance de fazer jus a esse raro presente – o de seguir vivo.




