
Parece que não fecha. Nunca se falou tanto em direitos das mulheres, nunca o machismo foi tão publicamente condenado, mas, ainda assim, o feminicídio cresce sem parar: o Brasil bateu recorde histórico no ano passado, com um salto de 316% em relação a 2015. E os primeiros 40 dias de 2026 já são uma carnificina.
A questão é que o feminicídio dispara não apesar de todos os avanços, mas em reação a eles. Temos mais campanhas, discursos e hashtags, mas é uma ilusão achar que consciência social gera transformação imediata. Pelo contrário: a consciência pode ser o momento mais perigoso de uma mudança – é quando o velho poder passa a ser questionado.
Durante muito tempo, o controle masculino funcionou sem precisar matar. Funcionava porque era normal, porque a gente aceitava, porque a mulher ficava, porque nem havia linguagem para nomear os abusos que ela sofria. E a violência doméstica não explode enquanto o homem manda. Explode quando o homem percebe que não manda mais. É aí que o modelo colapsa.
Porque, para esse homem, a mulher nunca foi só uma companheira. Ela era uma prova pública da sua autoridade, do seu valor diante dos outros, do seu comando sobre o mundo que ele construiu. A mulher, para ele, nunca foi um ser autônomo – ela era dele e ponto final. Se ela decide ir embora, ocorre o quê? Desmorona a narrativa que sustentava esse macho: ele perde o poder que exercia, perde a validação masculina, perde o papel – de provedor, superior, comedor – que o organizava.
E a reação vem.
Violência contra a mulher
É um momento histórico delicado. A consciência cresce mais rápido do que a proteção efetiva. Denúncias aumentam, mas o Estado ainda não consegue ser mais forte do que uma cultura profundamente enraizada. E essa cultura talvez ajude a explicar por que a sociedade se mobiliza contra a morte de um cachorro, mas não contra uma rotina brutal de feminicídios. Porque essa violência nos envolve.
Envolve homens comuns, pais, colegas, vizinhos. Exige rever comportamentos, reconhecer omissões, se indispor com amigos, ter conversas incômodas. É mais fácil se comover com um cãozinho do que enfrentar uma estrutura. É mais confortável odiar vilões do que admitir que falhamos com mulheres vivas.
Não estamos diante de uma epidemia inexplicável. Estamos diante da reação de um poder que se recusa a ceder. A pergunta não é por que eles matam. É por que tantos ainda acreditam que deixar de mandar é deixar de ser homem.
Como pedir ajuda
Brigada Militar – 190
- Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.
Polícia Civil
- Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente, à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
- Em Porto Alegre, há duas Delegacias da Mulher. Uma fica na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
- A outra foi inaugurada em 2024. O espaço fica entre as zonas Leste e Norte, na Rua Tenente Ary Tarrago, 685, no Morro Santana. A repartição conta com uma equipe de sete policiais e funciona de segunda a sexta, das 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 18h.
- As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.
Delegacia Online
- É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.
Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
- Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.
Ministério Público
- O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
- Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Acesse o site.
Defensoria Pública - Disque 0800-644-5556
- A vítima pode procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).
Disque 100 - Direitos Humanos
- Serviço gratuito e confidencial do Governo Federal, disponível 24 horas por dia, para proteção e denúncias de violações de direitos humanos








