
Cresci num mundo em que exagerar era uma forma de currículo. Não era "saí com meus amigos", era "acordei num sofá que nunca vi". Uma espécie de concurso informal de imprudência: todos medindo a própria valentia pelo nível de risco que se corria. Encher a cara, fumar, dirigir rápido, isso era juventude, era rebeldia, era liberdade – e era como se fosse o único jeito de viver intensamente.
Pois é curioso perceber que esse modelo ruiu. Dados do terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas mostram cada vez mais gente reduzindo o consumo de álcool – e a bebida era o grande símbolo daquele estilo de vida inconsequente. O percentual de adultos que bebem caiu de 52% para 44% desde 2006. Entre adolescentes, a queda é de 34% para 19%. Psicólogos e psiquiatras destacam a busca crescente por uma vida saudável, mas isso explica só a superfície.
No mundo ansioso de hoje, exausto de tanto estímulo, mergulhado em desgaste mental e cobrança por produtividade, o autocuidado ficou mais transgressor que a autodestruição. Escolher descansar, preferir cuidar da saúde, conseguir estabelecer limites, isso é o que agora soa subversivo e contestador. Não é para menos: os jovens de hoje cresceram vendo burnout, dependência química, pânico e depressão dentro de casa. A liberdade talvez não esteja mais em perder o controle, mas em mantê-lo.
Aquela imagem batida do artista bêbado, catando inspiração à meia-luz da madrugada, ficou datada. O próprio rock'n'roll – como dói dizer isso – envelheceu com seus mitos. Porque, se antes o bar era o centro da vida social, hoje os grupos se organizam em outros eixos. Atletas amadores se reúnem para correr ou jogar beach tennis. Há também a comunidade dos gamers. E a turma da ioga, do crochê, da cerâmica – são outras formas de estar junto, de pertencer, de criar vínculo.
A grande virada parece estar aí: a intensidade não acabou, só mudou de endereço. Se antes morava no exagero, agora mora na coragem de selecionar o que vale a pena – o que é bem menos infantil do que costumam insinuar sobre essa geração. Pode não ser tão fotogênico quanto acordar num sofá estranho, mas certamente faz mais sentido no dia seguinte.





