
Quanto menos sabemos sobre um assunto, mais certezas temos sobre ele. Parece um contrassenso, mas é verdade. Quanto menor é a nossa extensão, a nossa profundidade, o nosso conhecimento em relação às dezenas de variáveis que envolvem um mesmo tema, mais fácil é formar convicções a respeito.
Em 1999, dois psicólogos da Universidade Cornell comprovaram isso. Juntaram um grupo de voluntários e colocaram todos a praticar experiências diversas — desde jogar xadrez e dirigir um carro até fazer cirurgias em cadáver de mentira. Em todos os casos, os ignorantes não reconheciam o tamanho da própria ignorância. Só começavam a entender o quanto eram incompetentes depois que passavam a treinar e aprender.
Quer dizer: quem busca a instrução se afasta das certezas. Torna-se mais humilde e mais disposto a duvidar de si mesmo. Portanto, se você quiser ter certeza sobre qualquer assunto, eis a fórmula: não leia sobre ele, não ouça o outro lado, não tente entender as nuances, não pergunte a quem sabe.
Uma boa história sobre isso é a do economista Steven Levitt: ele decidiu investigar por que, de uma hora para a outra, os índices de criminalidade começaram a cair nos Estados Unidos. Depois de duas décadas com estupros e assassinatos subindo sem parar, os números repentinamente despencaram — até que, no ano 2000, a taxa de homicídios atingiu seu menor nível em 35 anos. Que diabos era aquilo?
Disseram que era o crescimento econômico. E as leis de controle de armas. E a política de tolerância zero em Nova York. Analistas, governo, comentaristas de boteco, todos tinham uma certeza — mas Levitt não se convencia, achava as explicações óbvias demais e, após anos estudando o assunto, concluiu que a principal causa para a queda na violência foi... a legalização do aborto.
Pois é. A partir de 1973, quando o aborto se tornou legal, a maioria das mulheres que se utilizaram da lei foram adolescentes muito pobres. E mais de 1 milhão de crianças que cresceriam em ambientes familiares adversos deixaram de nascer. Ou seja: duas décadas depois, quando essa geração alcançaria a idade do crime, parte da delinquência simplesmente deixou de existir.
Steven Levitt foi execrado pela direita, por atribuir ao aborto uma conquista da sociedade. E foi execrado pela esquerda, por associar criminalidade a pobreza. Só que ele nunca havia expressado julgamentos morais ou sua opinião particular sobre o aborto. Apenas analisou dados e chegou a uma constatação.
Voltando à nossa época, tão marcada por divisões e antagonismos, não custa lembrar que a certeza é proporcional à incompetência. E que só o saber produz a dúvida — maior companheira de Steven Levitt em seu estudo. Em resumo, só o idiota pensa que é sábio. O sábio mesmo é quem sabe o quanto é idiota.





