
Não quero bancar o joãozinho do passo certo, mas sempre me incomodou ver professor "pegando" aluna – na minha época, isso era comum no cursinho que eu fazia. Talvez, aos 17 anos, eu sentisse alguma inveja? Sim, é provável. Mas algo ali me irritava além do recalque adolescente, algo errado, injusto, um mal que eu não sabia nomear. Hoje, sei: um professor não pode transformar a sala de aula em vitrine de caça.
É claro que existem exceções: docente e discente eventualmente se apaixonam, se casam, formam família e tudo bem. Essas coisas acontecem, o amor é imprevisível. Mas são vínculos que nascem apesar da hierarquia que separa os dois, e não por causa dela. O professor não usa sua posição para obter uma vantagem – ele simplesmente é surpreendido por um afeto que poderia surgir em qualquer lugar.
No caso do professor de direito investigado em Porto Alegre, o que está em apuração é o contrário: alunas e outras mulheres dizem ter sido manipuladas e estupradas em razão da autoridade que ele exercia. É um método comum entre criminosos que ocupam funções de liderança – seja como professor, chefe, padre, até pai. Todos eles, aliás, são meio pais.
Todos contam com a deferência, a admiração e alguma dependência emocional de quem está do outro lado. Usar essa assimetria para seduzir não é conquista, é um abuso de confiança. É uma forma de corromper o sentido social da função que o líder exerce. A função deixa de servir a uma finalidade legítima – ensinar, proteger, orientar – para assumir uma finalidade privada e egoísta. Essa distorção, essa trapaça embutida no exercício do poder, era o que me dava asco no cursinho.
Alguém dirá que, se a aluna for adulta, já na faculdade, não haverá problema se houver consentimento. Mas essa é a questão: a impossibilidade de um consentimento plenamente livre quando existe hierarquia tão clara. Uma aluna – ou uma funcionária, uma pupila – pode sempre se sentir coagida de forma sutil: por desejo de agradar, receio de decepcionar, medo de represália, vontade de ser reconhecida. O laço afetivo já vem contaminado pela autoridade.
Embora pareça um problema restrito a algumas mulheres, o impacto é coletivo. Porque, se aceitamos que a autoridade seja usada em benefício próprio – como aceitávamos no cursinho –, será assim em qualquer lugar e contra qualquer pessoa, seja homem ou mulher, seja empresa ou governo. Quando a autoridade serve a si mesma, e não a quem precisa dela, a sociedade perde e o domínio avança.



