As advertências que vêm sendo feitas em sucessivas entrevistas pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga sobre a situação fiscal do país deveriam ser pauta obrigatória de todos os pré-candidatos à Presidência da República e também dos pretendentes a mandatos parlamentares. Sem uma reforma fiscal urgente — afirma o respeitado economista que comandou o controle da inflação após a retirada da âncora cambial do Plano Real, em 1999 —, o Brasil caminha para uma crise sem precedentes e para a recessão.
Os indícios dessa rota de colisão com o caos econômico são evidentes: mais de 80 milhões de brasileiros endividados, com contas em atraso ou com CPF negativado (segundo o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa); milhares de empresas com dificuldade para rolar suas dívidas; e o próprio governo gastando mais do que arrecada e descumprindo o arcabouço fiscal que ele mesmo instituiu.
A questão econômica tem sido tratada superficialmente pelos candidatos de todas as instâncias do espectro político, neste momento mais preocupados em conquistar votos do que em projetar problemas difíceis de resolver. Até porque os remédios necessários, segundo o economista, são amargos: nova e contundente reforma da deficitária Previdência Pública, corte dos subsídios e benefícios fiscais que já atingem cerca de 9% do Produto Interno Bruto e redução de gastos públicos em todas as áreas, inclusive nos demais poderes e nos Estados.
O crédito caro desestimula o consumo e o investimento das empresas, travando o crescimento do país
Ainda que a taxa básica de juros (Selic) venha sendo gradativamente reduzida pelo Banco Central, o atual patamar de 14% continua asfixiando a economia brasileira. O crédito caro desestimula o consumo e o investimento das empresas, travando o crescimento do país. Na visão de Armínio Fraga, só um compromisso real e mensurável dos três poderes com o ajuste fiscal e com o corte de gastos poderá interromper esse ciclo danoso para a economia e para a população. Porém, como sua receita para virar o jogo — como disse no ano passado em palestra a estudantes da Universidade de Harvard — inclui o congelamento do salário mínimo, nova mexida na Previdência e a redução de gastos tributários em pelo menos 2% do PIB, dificilmente algum candidato à Presidência e ao Legislativo vai encampar tais ideias num ano eleitoral.
Mas o debate sobre saídas para o impasse econômico não pode mais ser adiado. Ainda que a maioria dos políticos prefira abordar temas mais populares, como os escândalos de corrupção ou a redução da jornada de trabalho, sob o pretexto de que os fundamentos da economia são de difícil compreensão para a maior parte do eleitorado, o endividamento da população brasileira é uma realidade inquestionável. E não basta culpar as apostas esportivas, mesmo que estas careçam de uma regulamentação mais adequada para não serem vistas como solução mágica pelos inadimplentes, que acabam se afundando ainda mais nas dívidas. Não há solução mágica para dilemas econômicos. O que resolve é o planejamento, a responsabilidade e controle rigoroso de gastos, que podem ser resumidos numa fórmula simples e válida tanto para indivíduos quanto para governantes: ninguém deve gastar mais do que recebe.





