O novo tarifaço imposto pelo governo norte-americano contra o Brasil demonstra outra vez que os fatores políticos preponderaram sobre a lógica econômica. É lamentável que diferenças dessa ordem, alimentadas por interesses que não são os dos dois povos, tenham levado a relação entre os países ao pior momento em mais de 200 anos de convivência diplomática.
No futuro, esse episódio merece ser lembrado apenas como exemplo do potencial ruinoso do radicalismo
Com o ruído entre os canais oficiais, resta persistir nas negociações via setor privado, com as empresas nacionais mantendo contato com clientes dos Estados Unidos e suas associações, para que esses continuem a tentar influenciar a Casa Branca na busca por ao menos ampliar a lista de bens que escaparam da oneração. O Rio Grande do Sul é um dos Estados mais afetados. Metade da pauta gaúcha, pela forte presença de produtos industriais acabados, como máquinas e calçados, deve ser impactada. É preciso insistir em demonstrar o quanto a medida prejudica importadores e consumidores. O eventual uso da Lei de Reciprocidade teria de ser muito bem calculado.
As taxas adicionais contra as exportações brasileiras, agora de 25% sobre uma série de itens, não têm respaldo nas justificativas utilizadas por Donald Trump para erguer barreiras tarifárias. O republicano sempre argumentou que o objetivo era combater o déficit nas trocas com os demais países. O Brasil é um dos poucos que mais compra do que vende para os EUA. Mesmo assim, agora é o segundo parceiro mais sobretaxado pela Casa Branca, atrás apenas da China, o grande rival geopolítico e econômico dos norte-americanos.
O componente político é patente desde o anúncio do primeiro tarifaço contra o Brasil, no ano passado, quando Trump divulgou uma carta vinculando a taxa proibitiva de 50% ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. À tentativa inicial de ingerência seguiram-se a reabertura do diálogo diplomático e contatos entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas os capítulos recentes desse episódio e o desfecho desta semana põem em dúvida se de fato existia margem razoável de negociação, se havia disposição para transigir e mesmo sobre quais termos as tratativas eram conduzidas.
Em meio aos contatos empresariais e diplomáticos, a família Bolsonaro continuava a incitar a ala mais ideológica da Casa Branca a aplicar sanções contra o Brasil. O tarifaço de agora teve, por parte dos EUA, demandas inaceitáveis, como algum recuo ainda não bem explicado sobre o uso do Pix, e alegações baseadas em dados defasados, como os de desmatamento. As repetidas críticas públicas de Lula a Trump e ao governo norte-americano, mesmo que tenham fundo de razão, por certo não contribuíram para a Casa Branca ter maior boa vontade. O discurso da soberania brandido por Lula obedecia também a uma lógica eleitoral. A manifestação de ontem do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, dizendo que Lula e o governo brasileiro não negociaram de boa-fé e que o petista colocou à frente "o seu próprio ego" escancara ainda mais o viés político da desavença.
Conta-se que esse impasse seja apenas um momento transitório no histórico de vínculos econômicos e institucionais entre EUA e Brasil e que em um prazo não muito distante a racionalidade volte a preponderar. No futuro, esse episódio merece ser lembrado apenas como exemplo do potencial ruinoso do radicalismo.

