O aumento da abstenção nas últimas duas décadas no país torna necessário ampliar os esforços pela conscientização sobre a importância do voto. Essa mobilização é ainda mais necessária no Rio Grande do Sul, onde os índices de ausência recentes se mostraram especialmente elevados. É bastante oportuna, nesse sentido, a ação do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS) que foi deflagrada nesta semana para incentivar o comparecimento dos cidadãos aptos a votar no pleito de outubro.
O certo é que o aperfeiçoamento da democracia brasileira e da qualidade da representação depende das escolhas feitas pelos eleitores
A iniciativa teve o primeiro ato na segunda-feira, em Uruguaiana, com a presença da presidente do TRE-RS, desembargadora Maria de Lourdes Gonzalez, que promete percorrer todas as regiões do Estado. O município da Fronteira Oeste teve, na eleição para prefeito e vereador de dois anos atrás, a maior taxa de renúncia ao direito de votar no Estado. Não compareceram às urnas 33,8% dos eleitores. Porto Alegre foi a capital brasileira com a maior abstenção, de 31,51%. O número de ausentes foi superior ao dos votos recebidos pelo prefeito reeleito, Sebastião Melo.
As estatísticas expõem uma tendência paulatina de crescimento da abstenção no país desde meados dos anos 2000, tanto nas disputas municipais quanto nas eleições gerais. O fenômeno é atribuído a uma série de fatores. Um dos mais citados é o descrédito crescente da população em relação à política e aos políticos, diante dos escândalos de corrupção e do sentimento de que os eleitos privilegiam os próprios interesses e os de seus partidos. Também cresce a parcela dos brasileiros que se mostram exauridos pela radicalização. Alterar esse quadro depende apenas do eleitor, por meio do voto consciente, fruto de reflexão e da busca de informações sobre as candidaturas. Quem se exime de votar terceiriza aos que comparecem o poder de também influenciar o seu destino.
Há outros fatores que podem estar relacionados, como o envelhecimento da população. A partir dos 70 anos, o voto passa a ser facultativo. Porto Alegre e Rio de Janeiro, as duas capitais com as maiores taxas de idosos na população, foram as que apresentaram as maiores abstenções em 2024. Por outro lado, a facilidade para justificar a ausência por meio do aplicativo e-Título, no próprio celular, pode ser apontada como um fator a mais a desestimular deslocamentos para votar. Em 2020, a pandemia também inibiu o comparecimento e, em 2024, no Estado, as sequelas das enchentes foram um fator adicional a afastar o eleitor do dever cívico. O TRE-RS chegou a organizar, no ano passado, um seminário para compreender as razões do distanciamento crescente das urnas e buscar alternativas para elevar o comparecimento.
Se a desilusão com a política e com os eleitos é uma das principais causas do fastio dos cidadãos, é dever dos partidos e dos candidatos dar uma contribuição efetiva para mudar esse cenário. Centrar a campanha mais na apresentação de propostas factíveis para o desenvolvimento do Estado e do país e menos na tentativa de desconstruir os adversários é um começo. O certo é que o aperfeiçoamento da democracia brasileira e da qualidade da representação depende das escolhas feitas pelos eleitores.




