Os esforços pela prevenção de feminicídios podem ter uma contribuição valiosa da iniciativa anunciada na semana passada que prevê a reconstituição da trajetória das vítimas, a investigação sobre o perfil dos assassinos e o contexto que antecedeu os crimes. O crescimento dos números de homicídios por razão de gênero, tema de profunda preocupação na atualidade, demonstra que ainda é necessário encontrar as melhores estratégias para frear a violência contra a mulher e, por consequência, os desenlaces fatais.
Iniciativa pretende compreender os fatores de risco que levam à escalada da violência contra a mulher
A despeito da dedicação das forças policiais, da elaboração de políticas preventivas e de acolhimento, do aumento de penas e do empenho pela conscientização, as estatísticas falam por si. No Brasil, foram 1.568 feminicídios no ano passado, alta de 4,7% sobre 2004. O Rio Grande do Sul registrou 80 mortes em 2025, um crescimento de 10%. No primeiro semestre de 2026, foram 41 casos no Estado, ante 36 nos seis meses iniciais do ano anterior. Isso sem falar nos feminicídios tentados mas não consumados e nos milhares de episódios de agressões físicas e ameaças.
A iniciativa que pretende compreender melhor os fatores de risco que levam à escalada da violência une o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), a Universidade Regional do Noroeste do Estado do RS (Unijuí) e a Secretaria Estadual de Sistemas Penal e Socioeducativo (SSPS). Consiste na integração entre os projetos Sobre Eles e Pedros e Marias. Espera-se que as informações produzidas gerem subsídios que contribuam para a reformulação de políticas públicas existentes ou concepção de novas medidas preventivas. O combate à criminalidade se mostra mais eficiente quando as estratégias são baseadas em evidências e com abordagem científica. É possível obter melhores resultados também no enfrentamento dos assassinatos por gênero.
Outro aspecto relevante é o fato de o estudo considerar as diferentes realidades regionais do RS. Nesse sentido, prosseguirá o estudo Sobre Eles, concebido pela Unijuí e executado em parceria com a SSPS, que teve resultados parciais divulgados neste ano. Foram entrevistados 140 presos por violência doméstica, o que permitiu traçar o perfil dos agressores e perceber os diferentes padrões comportamentais e sociais.
As conclusões preliminares demonstram a importância da estratificação e sugerem que uma estratégia em uma região pode não ter a mesma eficiência em outra. No Interior, observou-se que as causas da violência estão mais relacionadas à cultura do machismo, sem que os agressores tenham necessariamente histórico de outros crimes. Na Região Metropolitana, os homens têm antecedentes por mais delitos.
Os feminicídios são o grande desafio do RS em um contexto de queda dos demais índices de criminalidade. Deve-se reconhecer os esforços dos últimos anos em termos de legislação, rede de apoio, medidas protetivas, preparação policial, atenção voltada à conscientização dos homens e preocupação em educar meninos para que não cresçam com a mentalidade machista que leva aos assassinatos de companheiras e ex-companheiras. Mas os números atestam que é preciso fazer mais. Compreender melhor o que antecede os feminicídios é uma estratégia promissora, capaz de contribuir para a queda dos indicadores em um futuro nem tão distante.

