O passado mostra não ser incomum que tensões entre países e fatores políticos locais contaminem grandes eventos esportivos, como Olimpíadas e Copas do Mundo. São conhecidos os episódios de boicotes, de exploração do sentimento de patriotismo e do uso das competições para propaganda por regimes autoritários. Ainda que não seja uma influência inédita, o componente extracampo no campeonato mundial de futebol entre seleções sediado em conjunto por EUA, México e Canadá, que se iniciou ontem, tem até aqui um impacto poucas vezes visto.
O futebol, como esporte mais popular do planeta, é único na mobilização de multidões, e o Mundial é o ápice dessa catarse coletiva
Não bastasse ser um momento de contendas geopolíticas intensas, de disputas comerciais e de conflitos armados, os norte-americanos, principais anfitriões do torneio, vivem um período de endurecimento de políticas migratórias. As diretrizes do governo Donald Trump têm produzido situações que se chocam com o espírito de congraçamento entre os povos em eventos do gênero e com a tradição de hospitalidade dos países-sede para com os participantes, profissionais que viajam a trabalho e visitantes.
Um árbitro da Somália, eleito o melhor da África ano passado, foi barrado de entrar nos EUA, decisão cuja razão careceu de transparência. Jogadores, delegações e jornalistas passaram por interrogatórios e revistas constrangedores e de viés discriminatório, e torcedores de alguns países tiveram vistos de entrada negados. A sensação é a de que nem todos são bem-vindos. Cogita-se ainda uma onda de prisões pela polícia migratória nos arredores dos estádios. É decisão soberana da Casa Branca não flexibilizar suas normas linha-dura, mas é uma postura que contrasta com o histórico de acolhimento e confraternização de diferentes culturas em Copas do Mundo.
Espera-se que, a partir de agora, com a competição já iniciada, seja a qualidade dos jogos, a habilidade dos craques e a plasticidade das jogadas e dos gols que passe a chamar mais a atenção, superando o foco nas descortesias do governo do país que vai receber 78 das 104 partidas da maior Copa da história, com 48 times, e a primeira que ocorre em três nações. O futebol, como esporte mais popular do planeta, é único na mobilização de multidões, e a Copa do Mundo é o ápice dessa catarse coletiva.
Em países como o Brasil, são semanas em que as asperezas da vida ficam um pouco de lado e as diferenças entre os cidadãos são ofuscadas em nome da corrente coletiva pela equipe canarinho. É verdade que até a camiseta da Seleção é objeto da disputa política e da polarização, mas o Mundial é oportunidade singular para fortalecer laços e lembrar que há mais razões para unir do que separar os brasileiros. Melhor ainda será se, ao longo dos jogos, o selecionado nacional superar o descrédito que o cerca e surpreender com a conquista do hexacampeonato.
Não se trata de recorrer a ufanismos ou de lançar a falsa ilusão de que uma Copa é capaz de curar a profunda cisão social no país. Mas de lembrar que a competição pode ser uma espécie de respiro em meio aos tensionamentos e compromissos cotidianos. Uma ocasião para reviver velhos hábitos, como reunir amigos e familiares para assistir aos jogos, pintar e ornar ruas e pendurar bandeiras verde-amarelas nos ambientes escolares e de trabalho. Faz bem se deixar levar pelo clima de mais leveza e de unidade nacional, ainda que efêmero.


