Em mais um capítulo da tensão entre Washington e Brasília, o Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) anunciou ter concluído a investigação iniciada no ano passado sobre possíveis práticas desleais do Brasil que prejudicam empresas e a economia norte-americana. O órgão propôs aplicar uma taxa de 25% sobre mercadorias brasileiras, notadamente bens industriais. É indisfarçável que o novo tarifaço tem muito mais caráter político do que técnico, somando-se a outras medidas que buscam pressionar o país, como a de onerar em até 50% as vendas brasileiras em 2025 e a recente decisão de classificar facções como organizações terroristas.
O Rio Grande do Sul, um dos Estados mais afetados pelas taxas de até 50% que castigaram o Brasil no ano passado, é especialmente interessado em uma solução negociada
No âmbito comercial, o Brasil não é um problema para os EUA. No plano racional, não deveria ser alvo de Donald Trump em sua obsessão por diminuir o déficit com as demais nações, que, no ano passado, chegou ao recorde de US$ 1,2 trilhão. O país é um dos poucos que mais compram do que vendem para os norte-americanos. Desde 2009 o resultado é negativo para o Brasil. Neste ano, de janeiro a maio o superávit dos EUA é de US$ 1,36 bilhão, superior a igual período de 2025.
Como o previsto, o governo Luiz Inácio Lula da Silva deflagrou nova mobilização para atribuir a possível taxação à família Bolsonaro, de olho na eleição de outubro. É preciso separar, no entanto, a estratégia eleitoral interna da sobriedade necessária para continuar negociando com a Casa Branca a reversão ou ao menos a desidratação do tarifaço, que pode afetar 21% da pauta brasileira, conforme o governo brasileiro. Haverá uma consulta pública antes da decisão final, a cargo de Trump, até o dia 15 de julho, e as tratativas prosseguem, como ressaltou o representante comercial dos EUA, Jamier Greer, no comunicado.
A despeito da motivação política, dadas as desavenças ideológicas entre os inquilinos da Casa Branca e do Palácio do Planalto, do lado brasileiro convém insistir nos argumentos técnicos e na atuação diplomática, com a colaboração da iniciativa privada. Se a porta está aberta para a continuidade das conversas, é dever perseverar no diálogo. A diplomacia nacional é experiente e preparada o suficiente para defender os interesses do Brasil. Chega também o momento decisivo de saber se a "química" entre Trump e Lula, se é que existe, pode ter efeitos práticos.
Se existir sinceridade na disposição norte-americana de manter a interlocução, ficará mais claro quais concessões os EUA querem. Assim, será possível avaliar o que é negociável e o que está fora de questão. Na investigação do USTR, há queixas inusitadas e esdrúxulas como as relacionadas ao Pix, a acordos comerciais do Brasil com o México e a Índia e uma suposta preocupação do governo Trump com o desmatamento, mas outras que podem ser melhor examinadas, como sobre patentes e o combate à pirataria.
O Rio Grande do Sul, um dos Estados mais afetados pelas taxas de até 50% que castigaram o Brasil no ano passado, é especialmente interessado em uma solução negociada, que impeça uma nova inviabilização das exportações para os EUA. Os negócios recém começavam a se recuperar após a Suprema Corte derrubar o tarifaço, em fevereiro. As incertezas, no entanto, exigem a continuidade dos esforços para novos mercados serem abertos ou ampliados.




