Ter uma infraestrutura moderna e à altura das necessidades da economia gaúcha é ponto de partida para o Rio Grande do Sul se tornar mais competitivo e voltar aos trilhos do progresso. O alto custo logístico afeta as empresas locais e limita a capacidade de atrair investimentos. Os últimos dias, no entanto, foram de notícias preocupantes para o Estado, por sinalizarem que a qualificação das malhas rodoviária e ferroviária está mais incerta e distante.
Do simpósio Malha Sul: Passado e Futuro da Ferrovia no Sul do Brasil, realizado pelo Ministério Público Federal (MPF), na Capital, veio a sinalização de que a problemática Rumo terá renovação temporária da concessão por mais dois anos, tempo para que o novo leilão seja feito e as operadoras vencedoras se organizem para assumir os blocos. Fica evidente, então, que nada será feito nesse período para recuperar as ferrovias gaúchas. Os trechos abandonados continuarão se degradando e a ligação com o restante do país seguirá cortada. Apenas 25% da malha recebida no início da concessão, em 1997, segue utilizada. Sabia-se há muito que o contrato se encerraria em fevereiro de 2027, mas os órgãos federais responsáveis parecem ter sido surpreendidos pela aproximação do prazo e agora buscam uma saída mal-ajambrada.
Não faltam adversidades, mas não pode faltar também mobilização da sociedade gaúcha, das entidades empresariais e das forças políticas
A inquietação aumenta com as informações sobre o modelo de concessão, com o fatiamento da Malha Sul em três blocos. Os dois que passam pelo RS são economicamente inviáveis, conclui o estudo federal, e dependerão de um aporte de recursos que virá do concessionário que vencer o leilão para a fatia lucrativa, que corta SC, PR e SP. Parecem ser fundados, portanto, os temores de que o fracionamento poderia levar os trechos gaúchos a não receber proposta. A consulta pública será aberta na segunda-feira. Espera-se ainda ser possível tornar os trechos do Estado mais atrativos.
Também alarma a situação de rodovias que precisam ser duplicadas e ter melhor conservação. É mau sinal o fato de não terem aparecido interessados no leilão do bloco 2 de estradas estaduais, no Vale do Taquari e no norte do Estado. Dúvidas sobre a viabilidade do modelo, riscos climáticos e a forte oposição política às concessões demonstrada na CPI dos Pedágios, na Assembleia, afastaram investidores. Não pode ser descartado que o mesmo ocorra com o lote 1, que engloba Região Metropolitana, Serra e Litoral Norte. A sugestão da CPI de o poder público fazer duplicações e melhorias necessárias nesses trechos ignora o histórico de incapacidade financeira e gerencial do Estado. Não há saída racional fora das concessões.
Outras vias essenciais enfrentam percalços. As duplicações das BRs 290 e 116 se arrastam. A BR-285, que atravessa o Estado da Fronteira Oeste ao nordeste gaúcho, não tem perspectiva de ampliação da capacidade. Sob gestão privada, a BR-386 terá a duplicação paralisada por três anos pela necessidade de revisar projetos, levando em conta a resiliência climática. Um novo El Niño chegou e teme-se por novos danos nas estradas.
Não faltam adversidades, mas não pode faltar também mobilização da sociedade gaúcha, das entidades empresariais e das forças políticas em torno das demandas ligadas à infraestrutura. A outra alternativa nessa encruzilhada é se resignar com estradas que são um risco à vida e entrave ao desenvolvimento.



