Em meio a uma série de ameaças e barreiras às exportações do país, vale dar evidência à notícia de que a China reconheceu nesta semana todo o território brasileiro como livre de febre aftosa sem vacinação. A chancela vem um ano após o Brasil ter esse status carimbado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e reforça a aceitação global do avanço da sanidade dos rebanhos nacionais. A China é o principal mercado brasileiro de carne bovina e o segundo em produtos suínos, e a tendência é de novas oportunidades de negócios.
Tamanho ganho de mercado se deve à competência de todos os elos da cadeia e à confiabilidade do sistema sanitário
A decisão chinesa favorece diretamente o Rio Grande do Sul. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) lembra que apenas Santa Catarina tinha esse reconhecimento de Pequim. Os gaúchos devem ser beneficiados de forma imediata. Oito unidades industriais no Estado poderão embarcar mais produtos, como carne com osso e miúdos. Mais frigoríficos brasileiros também irão usufruir da nova condição, com a ampliação da variedade de vendas de carne bovina com osso e miúdos.
O Brasil é o maior exportador de proteínas bovinas e de aves. Em 2025, tornou-se o terceiro em carne suína. Tamanho ganho de mercado se deve à competência de todos os elos da cadeia e à confiabilidade do sistema de defesa agropecuária. É um mérito dividido entre os serviços oficiais, as indústrias e os produtores. O reconhecimento dessa robustez ajudou o país a expandir a clientela.
Mas a competitividade do Brasil também gera reações. A própria China passou a impor cotas à carne bovina brasileira. É ainda comum deparar com medidas protecionistas camufladas de barreiras sanitárias. Isso impele o país a dar sempre prioridade à defesa agropecuária e a ser transparente com os importadores, para proteger negócios e restabelecê-los com rapidez quando algum episódio ligado à sanidade interromper o comércio.
O Brasil, neste momento, tenta que a União Europeia (UE) revise o bloqueio à compra de carnes do país a partir de setembro. O bloco sustenta que o Brasil não comprovou seguir as regras europeias de restrições ao uso de antimicrobianos na produção. O Ministério da Agricultura homologou na segunda-feira um novo protocolo sobre a prática, que pode ajudar nas negociações. Mas são críveis as desconfianças de que a motivação da UE é protecionista. O caso, no entanto, ilustra a importância de não deixar flancos abertos.
Outro tema que pede atenção é o relacionado à conformidade com leis, normas regulatórias e princípios reputacionais. Em nova investigação comercial contra o Brasil e outras nações, os EUA propõem tarifas de 12,5% a países que se valeriam de trabalho forçado. Sustentam que perderam mercado de carne bovina na China por esse fator ter dado maior competitividade à pecuária brasileira. A alegação é risível, apesar de ser fato a existência pontual de trabalho análogo à escravidão em grotões do país, chaga combatida pelo poder público. De forma hipócrita, não sugerem sobretaxar a carne brasileira vendida aos EUA, para evitar o risco inflacionário. Essa citação, no entanto, mostra o quanto as cadeias do agronegócio nacional também devem estar atentas a regras de integridade e ser eficientes para mitigar riscos de ataques comerciais e manter as posições de liderança.




