No início de março, o consenso de mercado materializado no Boletim Focus, do Banco Central (BC), indicava que o país chegaria ao fim do ano com uma Selic de 12%. Ainda sufocante, mas um alívio substancial diante do patamar de então, de 15%. Em três meses, o horizonte se transformou de forma radical. O recrudescimento da inflação e a expectativa de preços pressionados por fatores internos, externos e climáticos devem fazer que este seja o menor ciclo de corte do juro da história, com risco até de novo aperto monetário. Trata-se de um cenário doloroso para a saúde financeira das empresas e das famílias e para a dívida pública brasileira, o qual se fortaleceu com o IPCA de maio, divulgado na sexta-feira. Em 12 meses, a inflação está em 4,72%, acima do teto da meta do BC (4,50%).
O ano eleitoral faz Congresso, governo federal e Estados abrirem a caixa de Pandora das irresponsabilidades fiscais
Após duas reduções tímidas de 0,25 ponto percentual, a Selic está hoje em 14,5% ao ano e o Comitê de Política Monetária (Copom) volta a se reunir amanhã e na quarta-feira. Não há sequer garantia de novo corte mínimo. Aumentaram as apostas em uma pausa. A alta dos juros futuros chegou a indicar a possibilidade de elevação em agosto.
No front externo, a incerteza vem do petróleo e da possibilidade de o banco central norte-americano também recorrer ao torniquete monetário para conter a inflação. No Brasil, o fenômeno climático El Niño pode encarecer a conta de luz e os alimentos. Esses são fatores que as autoridades brasileiras não podem controlar. Mas, para agravar o quadro, o ano eleitoral faz Congresso, governo federal e Estados abrirem a caixa de Pandora das irresponsabilidades fiscais, elevando gastos e injetando demanda em uma economia já resiliente, com renda em alta e desemprego nas mínimas históricas.
Estimativas de instituições financeiras e de economistas indicam que o pacote de bondades do governo Luiz Inácio Lula da Silva, na busca obstinada pela reeleição, chega a cerca de R$ 200 bilhões. São medidas de oferta de crédito, que criam subsídios, ampliam programas sociais, impulsionam setores e deixam mais renda na mão dos consumidores. A mais recente cria um financiamento para entregadores de aplicativos adquirirem motos e bicicletas elétricas.
Não seria o Congresso, diante da avidez do Planalto por ações eleitoreiras, que se faria de rogado. A Câmara aprovou uma PEC que amplia a imunidade tributária para igrejas. O Senado avançou em outra PEC, que cria aposentadoria especial para agentes de saúde, e chancelou um projeto de lei para aumentar o piso de médicos e dentistas. O Senado também votou a renegociação das dívidas rurais, pauta com méritos, mas que, diante da desarticulação do governo, pode ter um alcance que vá muito além do fôlego necessário aos agricultores afetados pela sequência de eventos climáticos extremos. Enquanto minimiza as próprias inconsequências, o Executivo cogita judicializar as generosidades do Congresso, que teriam impacto fiscal de R$ 111 bilhões por ano. Levantamento da XP Investimentos indica que os Estados, na mesma toada da gastança, terão um déficit de R$ 6 bilhões, ante superávit de R$ 6,6 bilhões em 2025.
A conta da farra será apresentada aos contribuintes na forma de mais inflação e do remédio amargo do juro nas alturas, realimentando o ciclo do endividamento e da inadimplência.




