No momento em que o governo gaúcho cancela mais um leilão de concessões de rodovias do Estado por falta de interessados em administrá-las, tanto em decorrência das condições oferecidas quanto da oposição política ao modelo proposto de parcerias privadas, é oportuno prestar atenção no recorte da Pesquisa CNT Rodovias divulgada na última quarta-feira pela Confederação Nacional dos Transportes. O levantamento, baseado em dados colhidos no ano passado, mostra que somente 20% da malha rodoviária do país apresenta alto índice de segurança para motoristas e passageiros em caso de acidente de trânsito, ou seja, com infraestrutura capaz de atenuar o impacto de eventuais sinistros.
Investimentos públicos adequados em dispositivos de contenção, acostamentos, áreas livres de obstáculos, atenuadores de impacto e outros equipamentos de segurança passiva podem salvar vidas mesmo em casos de imprudência e imperícia
Resumindo: 80% das vias têm pouca segurança. O nome do levantamento é Índice de Perdão nas Rodovias porque avalia exatamente as características físicas das estradas que podem influir na gravidade dos acidentes. Culpar a rodovia pode parecer uma transferência indevida de responsabilidade quando se sabe que as causas mais frequentes dos desastres automobilísticos são o excesso de velocidade, o desrespeito à sinalização e a ingestão de álcool ou drogas por motoristas. Mas investimentos públicos adequados em dispositivos de contenção, acostamentos, áreas livres de obstáculos, atenuadores de impacto e outros equipamentos de segurança passiva podem salvar vidas mesmo em casos de imprudência e imperícia.
O estudo da CNT, que será divulgado em sua integralidade apenas no final do ano, mostra que mais de 80% da extensão analisada (114 mil quilômetros em todas as regiões do país) apresenta média ou alta probabilidade de que falhas de infraestrutura, somadas a erros de condução ou problemas mecânicos, resultem em mortes e feridos graves. Significa que intervenções contínuas em manutenção de barreiras, em sinalização e em restauração do pavimento contribuem para reduzir tragédias.
O levantamento também mostra que rodovias sob concessão privada apresentam índice de perdão mais elevado do que as estradas administradas por governos, o que apenas confirma a dificuldade do poder público de investir em segurança viária.
O ranking dos Estados com rodovias mais seguras, ou com “alto índice de perdão” na classificação adotada pela CNT, indica que o Rio Grande do Sul ocupa uma discreta nona posição, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Distrito Federal, Santa Catarina, Sergipe, Espírito Santo e Minas Gerais. É mais um indicativo de que o Estado precisa superar barreiras políticas e ideológicas para investir mais na segurança de suas estradas, inclusive com a intensificação de parcerias com a iniciativa privada para compensar a carência de recursos públicos.
É evidente que ações educativas, conscientizadoras e fiscalizatórias — como vem fazendo o DetranRS com resultados positivos neste primeiro semestre de 2026 — continuam sendo indispensáveis para disciplinar o trânsito nas cidades e nas estradas. Mas o levantamento da Confederação Nacional dos Transportes sobre estradas que perdoam e que não perdoam também deixa claro que a infraestrutura pode ser decisiva na preservação de vidas quando as demais precauções de segurança não são observadas por condutores de veículos e usuários de rodovias.




