A operação da Polícia Federal (PF) que cumpriu na sexta-feira mandados de busca e apreensão contra o ex-governador do Rio de Janeiro Claudio Castro (PL), condenado à inelegibilidade em março pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é apenas o mais recente dos muitos escândalos no Estado ainda frescos na memória. Todos os eleitos para o Palácio Guanabara nos últimos 30 anos foram alvo de investigações. Cinco foram presos e um, Wilson Witzel, foi afastado pela Justiça e sofreu impeachment. O breve inventário resume a degradação política e moral do Rio, onde o crime organizado parece estar cada vez mais incrustado no poder e a corrupção passou a ser prática corriqueira nos gabinetes.
Trata-se de uma chaga que aflige não apenas os fluminenses, mas todos os brasileiros, pelo fato de o Rio ser um símbolo do país e do soft power nacional projetado no mundo
Trata-se de uma chaga que aflige não apenas os fluminenses, mas todos os brasileiros, pelo fato de o Rio ser um símbolo do país e do soft power nacional projetado no mundo. O Carnaval, as praias, o futebol e o jeito descontraído em especial do carioca são a marca do país no Exterior, a despeito das mazelas como a violência e a dominação de territórios por facções e milícias. O Estado é ainda o segundo em peso econômico.
A operação Sem Refino assombra por escancarar o nível de tomada das instituições. Revelou uma estrutura montada para beneficiar o grupo Refit e seu dono, o empresário Ricardo Magro, investigado por fraudes bilionárias e lavagem de dinheiro em negócios com combustíveis. Mirou também um ex-secretário da Fazenda e um ex-subsecretário da pasta, um ex-procurador do Estado, um ex-presidente do Instituto Estadual do Ambiente, um desembargador do Tribunal de Justiça, dois policiais federais e um civil.
O Supremo Tribunal Federal (STF) decretou a prisão preventiva de Magro e pediu a inclusão de seu nome na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo para a captura de foragidos. Ele vive nos EUA. A Refit é a principal devedora de ICMS de São Paulo e uma das maiores do Rio. Mesmo assim, seria protegida pelo governo. Castro, segundo as investigações, amparava com medidas administrativas e jurídicas o esquema de sonegação. A Refit ilustra o que se convencionou chamar de devedor contumaz, empresas que lucram apenas com a prática recorrente de calote aos cofres públicos.
O Rio tem cinco ex-governadores vivos com passagens pela prisão: Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cabral, Rosinha Garotinho, Anthony Garotinho e Moreira Franco. Mas a lista de figuras públicas de relevo levadas para detrás das grades é mais extensa. Presidente da Assembleia até o ano passado, o ex-deputado cassado Rodrigo Bacellar está preso.
Foi detido pela primeira vez em dezembro, quando comandava o Legislativo, suspeito de vazar informações para o Comando Vermelho. Em fevereiro, um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, um ex-deputado federal e um ex-chefe de polícia foram condenados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes.
Para a depuração necessária no Rio, hoje corroído em todos os poderes, são imprescindíveis investigações consistentes que levem a condenações exemplares e cuidados redobrados com a infiltração de malfeitores nas instituições. Mas reverter de forma consistente o sequestro das instituições pela delinquência organizada depende especialmente das escolhas do eleitor.


