Nas comunidades carentes urbanas, nos confins da Amazônia, nos escritórios dos grandes centros financeiros e nos gabinetes, o crime organizado avança. As grandes quadrilhas se expandem dominando territórios e se imiscuindo em instituições e negócios lícitos. A mais recente radiografia da presença desses grupos vem de uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) ao instituto Datafolha, divulgada no domingo. A conclusão é de que 41% dos brasileiros de 16 anos ou mais, o equivalente a 68,7 milhões de pessoas, notam a existência do crime organizado no lugar onde vivem.
A dificuldade de neutralizar esses grupos decorre da sofisticação de suas estruturas e da atuação em múltiplas frentes
Não é mera constatação da existência de facções e milícias. Trata-se de uma realidade que impõe medo aos moradores dessas áreas, influencia o cotidiano e molda o comportamento de quem vive sob essa influência. São cidadãos reféns pelo receio de frequentar locais e de circular em certos horários, por serem obrigados a adquirir produtos e serviços dos criminosos e pelo imperativo da lei do silêncio. A pesquisa reflete a percepção de que a criminalidade cada vez é menos resultado da delinquência individual e de pequenos grupos e mais vinculada a grandes cadeias de comando, como as lideradas pelo PCC, Comando Vermelho e algumas facções regionais.
O combate ao crime organizado é um dos grandes desafios do Brasil. A dificuldade de neutralizar esses grupos decorre da sofisticação de suas estruturas e da atuação em múltiplas frentes. Outro levantamento do FBSP concluiu que essas megaquadrilhas faturaram R$ 146,8 bilhões em 2022 com negócios lícitos, como os de combustíveis e bebidas. Parte desse esquema foi revelada com a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, contra a lavagem de dinheiro no setor de combustíveis com o uso de fundos de investimentos e de fintechs. Entre os fundos suspeitos estavam os da gestora Reag, com conexões com o Banco Master.
O crime organizado, portanto, é onipresente, embora nem sempre percebido a olho nu. Também requer vigilância a infiltração no poder público. Em abril, a Polícia Civil paulista fez uma operação contra a penetração do PCC em diversas prefeituras a partir da eleição de 2024. Noticia-se que a Justiça Eleitoral estará mais atenta neste ano, com maior rigor na análise do registro de candidaturas vinculadas a facções e milícias.
Fazer frente a organizações tão complexas exige trabalho de inteligência, asfixia financeira, colaboração federativa e com outros países, devido ao seu caráter cada vez mais transnacional. A Lei Antifacção, que aumenta penas e amplia a capacidade de tomar capitais e bens, foi um avanço, a despeito das controvérsias que suscitou. O acordo fechado no mês passado entre o Brasil e os EUA é exemplar. Prevê troca de informações entre a Receita Federal e a Agência de Fronteiras dos Estados Unidos. O governo federal lança hoje um programa de combate ao crime organizado com aporte de R$ 11 bilhões, mas em fim de mandato parece mais estratégia eleitoral do que uma iniciativa capaz de ser de fato implementada. Depende muito da adesão dos Estados e, também em razão da aproximação do pleito, é provável que muitos governadores evitem chancelar o plano do Planalto. A politização, de qualquer lado, prejudica o combate efetivo ao crime organizado.


