O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro deve explicações convincentes sobre a relação com Daniel Vorcaro e quanto ao dinheiro que pediu ao dono do liquidado Banco Master. Alguém que pretende comandar o país, com reais chances eleitorais até aqui, não pode se esquivar de prestar os devidos esclarecimentos à sociedade acerca dos vínculos com o protagonista da maior fraude bancária do país e do que foi feito da cifra repassada. São satisfações que também terá de dar à Polícia Federal (PF) nas investigações formais que precisarão se seguir.
É risível a alegação do senador de que o caso não seria nebuloso por envolver patrocínio privado, sem dinheiro público
Diálogos de WhatsApp entre Flávio e Vorcaro foram revelados na quarta-feira pelo site Intercept Brasil. O senador chega a pedir ao banqueiro, hoje preso, o equivalente a R$ 134 milhões para custear o filme Dark Horse, sobre a trajetória do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Cerca de R$ 61 milhões foram repassados. Não há elementos que indiquem a transferência do restante.
Há muitos pontos turvos, que abrem margem para suspeitas. Em primeiro lugar, seria a produção cinematográfica brasileira mais cara da história. Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2025, teve orçamento de R$ 45 milhões, três vezes menor. É preciso elucidar o motivo de a verba ter sido depositada em um fundo sediado nos EUA, que tem como representante legal o escritório do advogado do irmão de Flávio, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que vive em autoexílio no Texas.
Após a publicação da reportagem, Flávio admitiu ter pedido financiamento para o filme. Mas o produtor-executivo do título, o deputado federal Mario Frias (PL-SP), negou qualquer ajuda financeira de Vorcaro. O mesmo assegurou a Goup Entertainment, empresa responsável pela produção. Onde, afinal, foram parar as somas transferidas? À colunista Malu Gaspar, de O Globo, o publicitário Thiago Miranda, que também intermediou os repasses, afirmou que não era para a ligação de Vorcaro com o filme vir a público. Por quê?
Flávio Bolsonaro tem de dizer por que mentiu quando, em entrevistas anteriores, negou ter mantido contato com o banqueiro. Nas conversas vazadas, os dois se tratam de forma fraternal, evidenciando intimidade. "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente", disse Flávio a Vorcaro no dia 16 de novembro de 2025, um dia antes de o empresário ser preso e o banco liquidado.
É ainda risível a alegação do senador de que o caso não seria nebuloso por envolver patrocínio privado, sem dinheiro público. Ora, o dinheiro do Master e de Vorcaro tem origem criminosa, de fraudes bancárias. Mesmo que os diálogos datem de antes de o escândalo estourar de vez, era corrente nos bastidores do mercado financeiro e de Brasília que os negócios do banco não cheiravam bem. A celeuma em torno da compra pelo BRB, instituição estatal do Distrito Federal, já estava instalada. De ser ingênuo o senador não pode ser acusado.
Era certo que, durante a campanha, Flávio Bolsonaro seria questionado sobre as suspeitas de envolvimento com rachadinhas e com milícias e sobre a mansão de R$ 6 milhões comprada em Brasília. É um escrutínio natural para um pretendente ao cargo mais alto da República. Agora, o senador tem um novo episódio obscuro que exige explicação. A não ser que não possa esclarecê-lo, pela hipótese de as respostas verdadeiras serem inconfessáveis.



