As edições dos jornais de 2 de maio de 2024 traziam manchetes inquietantes sobre o avanço da enchente no Estado. A destruição da infraestrutura se alastrava, famílias de várias regiões lamentavam a perda de suas casas, a quantidade de mortes chegava a 21 e a prefeitura de Porto Alegre anunciava que fecharia as comportas da cidade. O Rio Grande já vivia o pior desastre da sua história, sentenciava o governador Eduardo Leite. Os dias seguintes confirmaram o caráter inaudito da catástrofe climática, com uma devastação nunca vista, que deixou um saldo funesto de 185 vítimas fatais. Vinte e três pessoas seguem desaparecidas.
onvém lembrar o aspecto positivo de que o Plano Rio Grande, com ações de reconstrução, adaptação e resiliência, é lei
Relembrar a magnitude da enchente de maio de 2024, a sua força demolidora e todos os dramas humanos que causou cumpre um propósito. Não esquecer é essencial para que não esmoreçam os esforços para completar a reconstrução do Estado. Trazer à memória o evento extremo mais arrasador visto no país pressiona o poder público a materializar todas as promessas de entregar obras e iniciativas que tornarão o RS mais preparado para novos episódios de chuva volumosa e duradoura. É preciso proteger melhor cidades, moradias e populações, fazer estradas e pontes mais resistentes à força da água e dispor de estrutura humana e de tecnologia para alerta e pronta resposta.
É verdade que o Estado avança no reerguimento e está mais preparado para enfrentar novas enchentes de grandes proporções. Mas o estranho seria se não estivesse, ainda mais que, antes de maio de 2024, o RS teve outros episódios traumáticos em 2023, no Litoral Norte e no Vale do Taquari. Há investimentos bilionários em andamento e projetos que nem sequer começaram a ser executados pela complexidade e necessidade de planejamento meticuloso. É o caso dos diques que devem salvaguardar Eldorado do Sul, município mais atingido pela cheia de 2024. Recém o anteprojeto foi apresentado. Trata-se de uma obra que não pode falhar se vier a ser testada, no futuro.
Mas existem pendências. Em alguns casos, pela planificação robusta que exigem. Em outros, há atrasos que merecem atenção. A chegada de um novo El Niño, que tende a ser forte, aumenta a angústia. De R$ 14 bilhões que devem ser aplicados em mais de duas centenas de iniciativas, R$ 5 bilhões foram executados, o que demonstra o quanto ainda há para concretizar. Famílias que perderam residências seguem à espera de um lar definitivo. São centenas. Estão em curso trabalhos de recuperação em 800 quilômetros de rodovias. Não há perspectiva de quando o Estado voltará a ter ligação ferroviária com o restante do país. A Capital acaba de anunciar uma obra emergencial para evitar alagamentos na Zona Norte, onde fica o aeroporto Salgado Filho, que ficou fechado por cinco meses.
O balanço do que foi feito confirma que, sim, o RS está mais preparado contra grandes enchentes, mas ainda existem fragilidades. Convém lembrar o aspecto positivo de que o Plano Rio Grande, com ações de reconstrução, adaptação e resiliência, é lei. Tornou-se um instrumento de Estado para guiar os passos atuais e futuros na preparação contra as hostilidades do clima. O dever da sociedade é manter a vigilância para os compromissos serem cumpridos.



