A turbulência internacional causada por fatores como a crescente perda da confiança nos EUA como fiador da estabilidade global e a crise no Oriente Médio, com a consequente disparada nas cotações do petróleo, abre oportunidades promissoras para o Brasil. Cabe saber aproveitá-las. A guerra tarifária de Donald Trump impulsionou o acordo de livre-comércio entre União Europeia (UE) e Mercosul. Outros países e grupos de nações tentam acelerar novos tratados com o bloco sul-americano, naturalmente liderado pelo Brasil, maior e mais diversificada economia da região.
A alta dos preços da energia pelo conflito no Irã faz o mundo perceber a importância estratégica dos biocombustíveis, segmento em que os brasileiros têm reconhecida vanguarda. O forte fluxo de capital estrangeiro para a B3 é outro sinal de atenção dos investidores internacionais.
O interesse é reforçado com a edição deste ano da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, na Alemanha. Após 46 anos, o Brasil voltou a ser país-parceiro do evento. Os brasileiros estão presentes com a maior comitiva já levada ao encontro. Apenas do Rio Grande do Sul são 38 expositores e ao menos 90 representantes de empresas e instituições. A missão é liderada pela Federação das Indústrias do Estado do RS (Fiergs).
O interesse é reforçado com a edição deste ano da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo
Ainda que a inteligência artificial seja o tema predominante em eventos do gênero, desperta atenção a relevância conferida à pauta das energias renováveis. Não à toa, a defesa da expansão do uso dos biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, foi mote do pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da feira. O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, admitiu que o Brasil está bem mais avançado do que a UE no assunto. Convém lembrar que a partir de 2035 a UE permitirá apenas automóveis com motores que reduzam 90% das emissões de CO2.
O contexto fez a gaúcha Be8 um dos destaques do dia, nesta segunda-feira (20). A companhia de Passo Fundo apresentou aos europeus o novo biocombustível BeVant, testado em um caminhão Mercedes-Benz na Alemanha. O acompanhamento demonstrou redução de 99% de CO2 equivalente ante o diesel de origem fóssil. Trata-se de um exemplo de quanto o Brasil e o Estado podem contribuir para o processo de descarbonização europeu e tirar proveito da posição de liderança no segmento. Para isso, no entanto, ainda há trabalho diplomático a ser feito, como negociar flexibilizações às normas europeias que limitam o acesso ao mercado local de biocombustíveis feitos de culturas alimentares, sob o argumento de que o uso acaba por diminuir a oferta de comida.
Foi o choque do petróleo de 1973 que deu a ignição para o Brasil iniciar o programa de etanol de cana-de-açúcar, lançando o país ao pioneirismo nos biocombustíveis. Mais de 50 anos depois, o etanol e o biodiesel amortecem a crise de preços atual. O consumidor brasileiro viu os os derivados de petróleo nas bombas subirem abaixo da média mundial graças à aposta iniciada há meio século. O redesenho das relações internacionais e a transição energética colocam o país em posição privilegiada, até porque o mundo passa a valorizar mais parceiros estáveis, confiáveis e distantes de conflitos.



