Ainda que a enchente de 2024 tenha influenciado no resultado, é constrangedora a posição de Porto Alegre como a capital brasileira de pior desempenho quanto à alfabetização na idade certa. Os dados municipais do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada foram divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação.
Apenas 27% das crianças matriculadas no 2º ano do Ensino Fundamental de Porto Alegre foram consideradas capazes de ler frases e textos curtos, localizar informações consideradas explícitas e compreender sentidos em passagens com linguagens verbal e não verbal. A meta era alcançar 53%. Chegar a apenas metade de um objetivo que já não era exigente reforça a preocupação e aumenta a responsabilidade por ações que tragam resultados bem melhores já nos próximos levantamentos.
Se a Capital e o Estado pretendem ser referência em inovação, o passo inicial é ter índices compatíveis com esse propósito
Também exige atenção a performance de outros importantes municípios. Pelotas (29%), Rio Grande (36%), Santa Maria (48%), Passo Fundo (39%), Santa Cruz do Sul (54%), Caxias do Sul (53%), Novo Hamburgo (47%), Gravataí (46%) e Canoas (42%) ficaram abaixo da meta estadual, de 69%.
A alfabetização na idade certa é decisiva para a jornada escolar. Ter o domínio da leitura e da escrita esperado para a faixa dos sete anos faz com que os alunos tenham melhores condições de aprendizado de outras disciplinas nas séries seguintes. Ao influenciar o desempenho acadêmico, acaba também por repercutir no futuro profissional.
É plausível que a enchente tenha impactado. Toda a rede pública de ensino do município foi de alguma forma atingida. Dezenas de escolas foram alagadas e sofreram danos estruturais e aulas foram suspensas. A prefeitura também questiona critérios adotados pelo Inep no levantamento. Ainda assim, não há como aceitar a colocação da Capital.
É preciso ser repetitivo. Porto Alegre, assim como todo o RS, passa por uma transição demográfica acelerada. A população envelhece. Há repercussões econômicas na queda da fecundidade. Enfrentar esse quadro requer uma educação capaz de formar recursos humanos mais produtivos. Se a Capital e o Estado pretendem ser referência em inovação, o passo inicial é ter índices de alfabetização na idade certa compatíveis com esse propósito.
O alento é que o próprio município admite essa fragilidade e se mobiliza para reverter o quadro angustiante que aparece em outras aferições da qualidade da educação, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Porto Alegre aderiu no ano passado ao Pacto pela Alfabetização, idealizado pelo Instituto Raiar para apoiar gestões públicas nessa tarefa. Também está em vigor desde 2025 a lei que institui o programa Alfabetiza+POA. A finalidade é chegar a ter 75% dos estudantes com as habilidades esperadas ao final do 2º ano. Por avaliações próprias, a pasta da Educação sustenta ter resultados bem acima dos divulgados pelo Inep. Se for assim, em breve essa melhora se refletirá nos índices que fazem as comparações nacionais. Porto Alegre precisa estar entre as capitais líderes em alfabetização na idade certa, e não nas embaraçosas últimas posições.




