Poucos países no mundo têm a potencialidade brasileira. Recursos naturais abundantes, uma posição privilegiada para ser protagonista na transição energética e uma população diversa, tenaz e criativa são apenas alguns dos ativos que fazem o país rico em meios e capacidades para se desenvolver social e economicamente. Mas, ao mesmo tempo, não faltam vícios e entraves estruturais que, até aqui, vêm minando as possibilidades de o Brasil alcançar uma prosperidade à altura de suas imensas possibilidades.
O jeito que o país deve ter, portanto, não pode ser confundido com o famoso “jeitinho” brasileiro
É essa reflexão que vai permear as discussões da 39ª edição do Fórum da Liberdade, na PUCRS, na Capital, nestas quinta e sexta-feira. “O Brasil tem jeito” é o tema central do tradicional evento promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE). O encontro deste ano, um dos mais consolidados no mundo de discussões de fundo liberal, chega em um momento oportuno. Não é exagero dizer que, nesta quadra da história nacional, poucas vezes se mostraram de forma tão candente comportamentos pessoais que abalam a credibilidade das instituições e trazem desesperança à sociedade. Escândalos em série atingem todos os grupos políticos. Figuras de tribunais que deveriam ser exemplo de integridade aparecem envolvidos em negócios mal explicados. Castas resistem em abrir mão de privilégios. O orçamento público é capturado por interesses eleitoreiros e de grupos de pressão, em prejuízo à alocação racional do dinheiro dos pagadores de impostos e ao bem-estar coletivo. A burocracia e o peso do Estado tolhem a veia empreendedora dos brasileiros. Incentiva-se mais o compadrio do que a eficiência.
Estão presentes, nesses exemplos, hábitos infelizmente arraigados, como o patrimonialismo, o corporativismo e o populismo, práticas que drenam recursos dos contribuintes, empobrecem a nação como um todo e tolhem a possibilidade de desenvolvimento individual de dezenas de milhões. A essas mazelas se somaram outras nos últimos anos, como o crescimento do radicalismo, que transformou adversários políticos em inimigos existenciais, e ameaças à liberdade de expressão.
O jeito que o país deve ter, portanto, não pode ser confundido com o famoso “jeitinho” brasileiro, em especial quando este deixa de ser sinônimo de solução inventiva e tem o sentido de malandragem ou de obtenção de vantagens ilegais e imorais. Ilustrou bem essa dicotomia ontem, no almoço de lançamento do Fórum da Liberdade, o CEO da gigante chilena de celulose CMPC, Antônio Lacerda. A empresa enfrenta entraves para confirmar um megaprojeto no Estado, de R$ 27 bilhões, o maior investimento da história do Rio Grande do Sul. A companhia não está em busca de atalhos, exceções ou jeitinhos para solucionar os obstáculos ao empreendimento, reforçou Lacerda. Basta que as regras vigentes sejam aplicadas “com equilíbrio, sem ideologia e sem politicagem”.
Para o Brasil ter jeito, é imperioso que as instituições funcionem e seus membros ajam de forma republicana. As leis devem valer para todos os cidadãos. As regras do jogo, inclusive as eleitorais, têm de ser respeitadas. Contratos precisam ser honrados, e governantes e legisladores nortear-se pelo interesse público, e não por vantagens pessoais ou para o grupo ao qual pertencem. Eventos como o 39º Fórum da Liberdade ajudam, pelo debate de ideias, a iluminar esse caminho.


